OPINIÃO

Inflamação é fogo


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Atribui-se ao filósofo grego Empédocles a ideia de que tudo o que existe é formado pela combinação de quatro “elementos”: a terra, que tem a solidez necessária para concretizar tudo o que é palpável, a água e o ar, constituindo o equilíbrio entre a parte sensível e a racional de tudo e, por fim, o brilhante e chamativo fogo.

Todos que observam a natureza dinâmica e caótica, consumidora do fogo, percebem o enorme potencial que ele tem para transformar tudo que toca. O próprio símbolo associado com o fogo, um triângulo, faz referência à associação de comburente (o oxigênio) e combustíveis (aquilo que é queimado) em uma condição de ignição onde gera-se energia (o calor) e o resíduo (produto da queima). Transformar acaba sendo a propriedade mais aparente do “elemento” fogo.

Da mesma antiguidade clássica de onde surgiram os “elementos”, vieram também as bases da medicina contemporânea, tanto que aprendi na faculdade os sinais clássicos da inflamação (palavra com o significado literal de “pegando fogo”) enunciados desde esses primórdios por médicos-filósofos como Hipócrates: calor e rubor são dois deles e denotam como o “elemento” fogo se encontra nos locais inflamados.

Hoje o conhecimento de microscopia e bioquímica nos permite entender melhor a manifestação destes sinais, através da ação de substâncias capazes de alterar a circulação  sanguínea na região e populações de células “de defesa” que se reúnem em torno do ponto inflamado, tudo cuidadosamente explicado pela ótica moderna, contudo, o conhecimento antigo ainda é bastante útil.

Enquanto processo transformador, a inflamação é o primeiro estágio de uma mudança, onde o corpo entende que a estrutura afetada precisa ser reformada para desempenhar melhor a sua função, garantindo um aspecto fundamental na sobrevivência. Caso ela tenha se lesado no seu empenho de corresponder à sua solicitação, precisa ser primeira desconstruída para ser então reforçada. Esse processo é observável em tecidos orgânicos de praticamente todos os seres vivos já há milhares de anos e não é exagerado pensar que a natureza se utiliza o poder de transmutação do fogo para isso.

Ainda que o simbolismo não revele o mecanismo pormenorizado de como a inflamação ocorre, ele mostra muito do processo no qual ela faz parte, desfazendo a ideia de que ela é algo errado, ou mesmo algo que deva ser evitado. Ela é o primeiro passo de um “caminho” em direção ao maior potencial de vida.

Os problemas ocorrem, contudo, quando o processo projetado para ser passageiro passa ser permanente, consumindo mais do que deveria ou tornando-se incapaz de terminar, já que a demanda por mais transformação vai além do que o ser vivo consegue corresponder.

Segundo essa óptica “tratar” a inflamação não é fazer algo para evitá-la, mas dar um fim à necessidade que estimula a inflamação, para que o processo se conclua, não se detendo ou se repetindo.

Desta forma, insistir em pensamentos e atitudes que sustentem percepções de desvantagem e desvalorização do próprio corpo diante os eventos da vida ativa um circuito de estímulos neurológicos e hormonais de uma demanda biológica por melhoria de maneira desmedida, mantendo um processo fisiológico que deveria ter se extinguido há muito por não ter uma utilidade real, tal como sustentar uma chama de vela acesa para iluminar um quarto ainda mais, quando a luz do dia já entra clara pela janela aberta.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia.

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