Outro dia escrevi sobre a passagem de Humberto de Campos por Jundiaí, quando foi visitar Campinas e Americana no ano de 1929.
Nossa cidade surge outra vez em seu “Diário Secreto”. Agora, lamenta um encontro que teve na sua rápida passagem por Jundiaí. Ficou até sem dormir de tão impressionado. Tanto que começa o relato com: “Noite ingrata, de homens sem o hábito humano das viagens. Quando, ontem, viajámos entre Jundiaí e Campinas, cruzamos com dois leprosos, montando dois cavalos, de cuja garupa pendiam amarradas pelos pés. “A lepra por aqui é uma calamidade... advertiu-me Wilson Coelho de Sousa, nosso companheiro de viagem”.
Lembrei-me da constância com que pessoas de baixa extração usavam a palavra “morfético” nos xingamentos. Era uma forma antiga, pejorativa e estigmatizante, para referir uma pessoa com hanseníase, também conhecida como lepra ou morfeia. A origem é o latim “morphea”, que vem do grego “morphé”, forma, direta alusão às graves alterações físicas e deformidades que a doença causa em estágios avançados.
A palavra tem origem no latim morphea, que vem do grego morphé ("forma"), uma referência direta às graves alterações físicas e deformidades que a doença pode causar em estágios avançados.
Antes da descoberta da cura, os leprosos eram isolados em colônias. Também a eles se referia como “lazarentos” e em nossa cidade, onde hoje é o sofisticado Jardim Brasil, existia uma Capela de São Lázaro, infelizmente demolida, que era o testemunho de que Jundiaí teve o seu leprosário.
O mais conhecido em nosso Estado era o de Pirapitingui, entre Itu e Sorocaba. Para lá iam os leprosos em estágio adiantado da enfermidade. Suas famílias raramente os visitavam. Morriam lá e eram lá mesmo enterrados, no Cemitério São José.
A lepra ainda existe, mas conseguiu ser debelada, ao contrário do câncer. Mas à época em que se não conhecia cura, o temor era intenso. Humberto de Campos, impressionado com os leprosos que viu no caminho, se amargurava: “À noite, no hotel, diante da cama larga, no quarto que me fora destinado, eu olhava com desconfiança a colcha, o cobertor, o travesseiro. Vinham-me à lembrança os mutilados do caminho. Tirei a roupa, vesti um pijama que trazia, e, estendendo sobre a cama o meu sobretudo, fiz dele, na noite fria, colcha e cobertor. De cinco em cinco minutos um estrépido de ferragens, um apito, um ruído de vapor que se escapa. São as máquinas em manobras, na estação fronteira. E é assim que vejo raiar o dia, que me encontra fatigado da meia-vigília noturna”.
Se a hanseníase deixou de ser aquele fantasma aterrador, hoje ainda persistem inúmeras enfermidades que tornam aqueles que delas foram acometidos verdadeiros párias. Pense-se na tuberculose, que lamentavelmente voltou, na AIDS, ainda alvo de preconceitos cruéis.
A saúde é um bem precioso. Que só se valoriza quando se o perde ou reflete sobre a não remota possibilidade de vir a perdê-lo. Cuidar da saúde é um dever indeclinável. E colaborar com aqueles que a negligenciam, uma obrigação ética.
O paradoxo do avanço da ciência e da tecnologia: vive-se mais, a longevidade está ao alcance de quase todos.
Entretanto, ainda existe quem não atente para conselhos singelos: fazer exercício, alimentar-se corretamente, não fumar, não abusar do álcool.
Se fôssemos observadores da História, veríamos que muita coisa mudou, mas o descompromisso dos humanos com os cuidados exigidos para sua integral sanidade é algo que persevera. Mudam os tempos, só não muda a fragilidade do juízo dos bichos racionais.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.