OPINIÃO

Fraternidade e moradia


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Em nossas cidades, inclusive em Jundiaí e região, homens, mulheres e crianças adormecem diariamente sem cama, sem paredes, sem proteção. O chão se transforma em abrigo improvisado, o céu aberto em teto incerto, e a esperança, tantas vezes ferida, luta para não se apagar. Essa realidade, por vezes ignorada ou naturalizada, interpela não apenas a consciência cristã, mas a responsabilidade de toda a sociedade.

Ao entrar na história humana, Deus não escolheu palácios nem privilégios. Jesus nasceu pobre, sem casa, acolhido numa manjedoura. Desde o início, experimentou a fragilidade de quem não tem onde repousar a cabeça. Esse dado central da fé cristã revela um Deus que se aproxima dos que vivem à margem, dos que conhecem a insegurança, a exclusão e a ausência de direitos básicos. A encarnação não é apenas um mistério teológico; é um chamado ético.

Por isso, cada pessoa que vive sem moradia digna nos revela um rosto humano ferido que clama por cuidado e atenção.

É importante afirmar com serenidade: falar de moradia não é fazer ideologia. É falar de dignidade. Quando a Igreja se manifesta sobre esse tema, o faz por fidelidade ao Evangelho e por compromisso com a vida concreta das pessoas.

É nesse contexto que se insere a Campanha da Fraternidade (CF), uma iniciativa da Igreja no Brasil realizada anualmente desde 1964. Durante o tempo da Quaresma, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, é proposta uma reflexão sobre temas que tocam diretamente a vida humana, incentivando não só conscientização, mas atitudes concretas de solidariedade e responsabilidade social.

Ao longo dos anos, infelizmente, a CF também passou a ser alvo de preconceitos e julgamentos apressados. Há quem a rejeite sem conhecê-la, rotulando-a injustamente. É preciso dizer com clareza: a Campanha da Fraternidade é uma expressão madura da fé cristã, profundamente enraizada no Evangelho e na tradição humanista da Igreja. Defendê-la é defender o diálogo, a consciência social e o compromisso com o bem comum.

Em 2026, a Campanha traz o tema “Fraternidade e Moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós”. A escolha é especialmente oportuna num país marcado por desigualdades profundas e por uma crise habitacional. Onde falta casa, falta dignidade. Onde não há teto, a vida se torna mais vulnerável.

Moradia não é apenas um conjunto de paredes e telhados. É espaço de proteção, de convivência familiar, de descanso, de espiritualidade e de futuro. Sem lar, a pessoa perde vínculos, referências e perspectivas. Defender o direito à moradia é salvaguardar a vida e afirmar que ninguém pode ser tratado como descartável.

Não podemos nos acostumar com a presença de pessoas vivendo nas ruas como se isso fosse inevitável. Tampouco podemos aceitar a indiferença como resposta. A dignidade humana deve estar no centro de toda organização social, ou política pública e ação comunitária. Isso exige esforço conjunto do poder público, da iniciativa privada, das organizações sociais e das comunidades religiosas.

A Campanha da Fraternidade nos recorda que a fé, quando vivida de forma autêntica, gera compromisso. E que a oração, quando verdadeira, conduz à ação. Abrir espaço para quem não tem onde morar é permitir que a dignidade floresça e que a humanidade avance.

Que este tempo seja uma oportunidade de conversão do olhar e de renovação do compromisso social. Afinal, acolher quem não tem teto é acolher a própria vida. E, para quem crê, é permitir que Cristo continue a morar entre nós.

Dom Arnaldo Carvalheiro Neto é bispo diocesano de Jundiaí 

Comentários

1 Comentários

  • Gabriel da Silva Vieira 02/02/2026
    Vossa Excelência Reverendíssima, Bispo da Diocese de Jundiaí, Dom Arnaldo Carvalheiro, a sua benção! Gostaria de ler mais em Vossa coluna sobre chamado a conversão. Mas à conversão ao catolicismo, à conversão aos ensinamentos da igreja, a confissão semanal, à missa diária, à importância da Eucaristia, à importância dos sacramentos, ao batismo célere sem cursos infinitos, à morte para o mundo, um chamado à verdadeira conversão. Certamente muita gente passa fome, muita gente não tem moradia, muita gente necessita de cuidados básicos que não tem, mas muito mais gente, um número estrondoso de pessoas a mais, incluindo a maioria das que passam necessidade está em estado de pecado mortal. A pobreza material não é o centro do evangelho e por muitas vezes é somente um exemplo para a pobreza, como na liturgia do último domingo, sobre os pobres DE ESPÍRITO. Ademais, todos os problemas do mundo, incluindo os financeiros e sociais se resolveriam com a frequência sacramental, com a conversão em massa. Lhe faço este apelo para as próximas colunas, salvemos às almas, “e as demais coisas lhes serão acrescentadas”. Com absoluto respeito, reverência e admiração à Vossa autoridade instituída legitimamente pela Santa Igreja, GABRIEL VIEIRA