OPINIÃO

O clima exige protagonismo urbano


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A COP30 não atendeu à reivindicação das entidades representativas das cidades, para que o trato climático urbano constasse dos documentos finais. É a posição de Philip Yang, fundador do Urbem, Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (FSP, 30.11.2025).

Não faltou estudo prévio. ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, o C40 Cities, o GCOM – Pacto Global de Prefeitos, o CGLU – Cidades e Governos Locais Unidos e o PMDV – Fundo Mundial para o Desenvolvimento das Cidades, motivaram prefeitos, governadores e sociedade civil durante todo o ano de 2025.

Para Yang, “infelizmente, todo esse acúmulo de conhecimento político e técnico não se traduziu em novos mandatos, nem em parágrafos operacionais que reconhecessem a governança multinível e a urbanização como pilares do regime climático”.

As cidades, onde residem praticamente noventa por cento dos cidadãos, não mereceram a devida atenção. A centralidade das cidades esteve nos discursos, mas a rigidez na redação dos documentos finais não refletiu essa preocupação.

Isso deve sensibilizar os prefeitos, para que encarem com firmeza e determinação o descompasso entre onde a ação climática acontece e onde as normas globais são escritas. Quem atua na interface entre cidades e clima se vê forçado a revisar estratégias.

A capital paulista pode indicar um bom caminho: tem uma Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas, que durante 2025 realizou intenso calendário de atividades para a Pré-COP30, investiu na desfossilização, pondo em funcionamento mais de mil ônibus elétricos, desenhou a alternativa do biometano para abastecer caminhões de coleta de resíduo sólido e também para servir ao transporte coletivo, em complementação à eletrificação que trombou com a insuficiência de infraestrutura de recarregamento.

A par disso, promoveu gigantesco plantio de árvores nativas, multiplicou os bosques urbanos, comoveu a sociedade civil a participar dos mutirões que ocorreram durante quase todos os sábados.

Esse exemplo deve se replicar em todos os outros 644 municípios paulistas. Não há cidade que não precise de árvores, que não possa incentivar o uso do transporte coletivo, do uso da bicicleta e do andar a pé.

Economizar água, separar adequadamente o resíduo sólido, incentivar os escolares e seus professores a encontrarem soluções alternativas para problemas aparentemente insolúveis, é dever de casa que não pode ser negligenciado.

A responsabilidade cidadã cresce em grau e intensidade, exatamente porque a COP30 não avançou como deveria. É também a conclusão do maior climatologista brasileiro, Carlos Nobre, que coordena, no Instituto de Estudos Avançados da USP a Cátedra “Clima e Sustentabilidade”.

Para Carlos Nobre, “o planeta enfrenta uma emergência climática que já se consolidou como uma das maiores ameaças à estabilidade ecológica e à segurança humana no século 21. ... A comunidade científica alerta há mais de duas décadas sobre os perigos de um modelo econômico baseado em combustíveis fósseis e na destruição das florestas...E o futuro próximo é ainda mais preocupante. Um mundo que ultrapassa 1,5º C aumenta os riscos de pontos de não retorno em sistemas críticos”.

São advertências muito explícitas sobre a responsabilidade cidadã. Não se espere de governos centrais, envolvidos em múltiplas questões, complexas e sob a égide da política partidária imediatista e interesseira. As soluções devem ser adotadas em cada rua, em cada bairro, em cada cidade. As futuras gerações nos cobrarão com severidade, se continuarmos inertes e impassíveis, com a cada vez mais próxima ameaça de “a casa comum cair”.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo. 

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