OPINIÃO

Cheguei aos 80!


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Confesso que não senti o significado de chegar aos oitenta, idade provecta, pois minha mente parece haver estacionado há muito. É óbvio que contra fatos não há argumentos. O calendário está aí, a me lembrar que quem nasceu em 24.12.1945, em 24.12.2025 atinge os oitenta.

Estas oito décadas foram rápidas demais. E hoje, os dias parecem mais curtos e os anos também. O saldo dessa vida é uma coleção de ganhos e perdas. Mais ganhos do que perdas.

Perdi primeiro avós, tios, primos e os golpes mais rudes foram a precoce morte de meu irmão João René, em 1989. De meu pai, atingido inexoravelmente pela partida prematura do caçula que o surpreendera, diante da caretice dos dois mais velhos, isso em 1992. E a maior e mais dolorida foi a despedida de minha mãe em 2005. Vinte anos já! E não há dia em que não converse com ela, tentando adivinhar o que me diria diante do que me acontece na rotina dos dias.
 Tenho muito mais a agradecer do que reclamar. Reafirmo e acredito possuir mais do que mereço. A Providência sempre me acompanhou. A primeira mestra, minha mãe, me fez acreditar na potência do estudo. Me ensinou a paixão da leitura. Fez com que alcançasse excelente estágio na datilografia, hoje digitação, que me permite externar minhas ideias ao teclado com proficiência incomparável com a expressão verbal.

Professores devotados. A ventura de passar pela Escola Paroquial “Francisco Telles”, os sete anos no Ginásio e depois Colégio “Divino Salvador”. Devo à querida e gloriosa Pontifícia Universidade Católica de Campinas o meu amor ao direito e à Justiça. Integrar durante praticamente meio século o sistema Justiça paulista, primeiro no Ministério Público, em seguida na Magistratura, moldou-me e estigmatizou-me. Mesmo depois de dez anos da aposentadoria voluntária – poderia ter permanecido mais um lustro no Judiciário – ainda sonho com julgamentos. A toga é mais do que um simbolismo. É algo entranhado em meu ser.

Amigos que me apoiaram sempre. Se eu fizer um “Tratado da Gratidão”, relembrarei aqueles que mudaram o sentido de minha vida e que foram instrumentos da proteção divina a iluminar meus caminhos. Levo o reconhecimento muito a sério. Ser grato é um dos índices de aferição do caráter de uma pessoa. 
 Família que só me propiciou alegrias e que continua a me considerar bem-aventurado. As irmãs que restaram, Raquel e Jane Rute, são amigas fieis e incondicionais. Meus filhos me orgulham: João Baptista, José Renato, Ana Beatriz e Ana Rosa. Devem muito a Maria Luíza, que esteve à frente da prole, pois este servidor viciado em trabalhar trocava sábados, domingos e feriados que deveriam ser destinados ao prazer, ao desafio de manter a jurisdição em dia. Cheguei a conversar com eles, quando adolescentes, se eles preferiam um pai sempre à disposição e relapso na função, ou se eu poderia continuar no meu vício confessado: enfrentar os processos. Obtive a concordância deles.

Deram certo, graças aos céus! Presentearam-me com oito preciosidades, os meus netos Maria Antonia e Maria Rosa, Lara e Ella, Antonio Carlos, Bento e Sofia e o caçula Theo. São motivo de alegria para os orgulhosos avós

Rendo graças à Providência, que me poupou de incapacidades que afligem tantos amigos, muitos deles bem novos ainda. Só tenho a agradecer e continuar a fazer o mínimo, de acordo com minhas modestas e limitadas capacidades, para reduzir as consequências da devastação ambiental. Enquanto puder, continuarei na luta. Velhinho, mas com alma de jovem que tem a esperança como companhia perene. Deus lhes pague a todos os que me acompanharam nessa jornada em que continuarei, até que Ele permita.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

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