OPINIÃO

A mudança da pirâmide alimentar


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Durante décadas, a pirâmide alimentar foi apresentada como um guia quase que absoluto de saúde. Muitos de nós aprendemos que a base da alimentação deveria ser composta por pães, massas, arroz e cereais, enquanto proteínas e gorduras ocupavam posições secundárias, muitas vezes associadas ao risco, e aprendíamos isso na escola. No entanto, essa estrutura nunca refletiu fielmente a fisiologia humana, e sim interesses econômicos, agrícolas e interpretações científicas limitadas de seu tempo.

Neste primeiro mês de 2026, as novas Diretrizes Dietéticas para Americanos oficializaram
uma mudança significativa nesse modelo. Pela primeira vez, o governo dos Estados Unidos reconheceu a necessidade de inverter a lógica da pirâmide alimentar para enfrentar o avanço das doenças metabólicas, como obesidade, diabetes tipo 2, inflamação crônica e perda precoce de massa muscular.

A principal mudança foi a inversão da base da pirâmide, que muitos profissionais da saúde rebatem há tempos. Os carboidratos refinados, antes considerados o pilar da alimentação diária, perderam protagonismo. Em seu lugar, passaram a ocupar posição central as proteínas de alta qualidade e os vegetais. Essa decisão reflete um entendimento mais atual sobre saciedade, controle glicêmico, saúde hormonal e preservação muscular ao longo da vida. Assuntos que já escrevi inúmeras vezes aqui e que chegavam a causar indignação.

A redução histórica da importância da proteína não ocorreu por razões biológicas, mas por fatores econômicos e industriais, infelizmente. Alimentos ricos em carboidratos refinados sempre foram mais baratos, fáceis de armazenar e produzir em larga escala. Além disso, a chamada “guerra às gorduras”, iniciada no século passado, acabou atingindo também as proteínas de origem animal, frequentemente associadas de forma equivocada às doenças cardiovasculares.

As novas diretrizes corrigem esse erro ao encerrar a demonização das gorduras naturais. Azeite de oliva, manteiga, ovos e laticínios integrais voltam a ser reconhecidos como aliados da saúde e já era tempo, pois são essenciais para o funcionamento cerebral, hormonal e cardiovascular. Hoje, sabemos que o verdadeiro problema nunca foi a gordura em si, mas o excesso de alimentos ultraprocessados e açúcares adicionados.

Pela primeira vez, o guia recomenda explicitamente a redução drástica de alimentos altamente processados e carboidratos refinados. Ao mesmo tempo, houve um aumento importante na recomendação diária de proteína, que passou para cerca de 1,2 a 1,6 gramas por quilo de peso corporal, com foco em saciedade, manutenção da massa muscular e saúde metabólica.

O açúcar tornou-se o principal alvo. As novas orientações indicam que os açúcares adicionados não devem ultrapassar 10 gramas por refeição, com recomendação de consumo zero para crianças menores de 10 anos, reconhecendo seus impactos negativos sobre o metabolismo, a inflamação e a saúde mental. Para agora um pouquinho e reflita sobre a nossa triste realidade. O que nossas crianças andam comendo? Como está a saúde física e mental destas crianças?

Curiosamente, essa mudança nos aproxima da forma como o ser humano sempre se alimentou. Durante mais de 95% da história da humanidade, nossos ancestrais caçadores-coletores baseavam sua dieta em proteínas, gorduras naturais, vegetais, frutas e raízes. Não existiam carboidratos refinados nem consumo frequente de açúcar. Foi essa alimentação que sustentou o desenvolvimento do cérebro humano, da força física e da capacidade de adaptação.

Mais do que uma nova pirâmide, vivemos uma mudança de consciência e essa é a parte que eu particularmente, mais gosto. Comer bem deixou de ser apenas o “seguir dogmas” e passou a significar escolher alimentos de verdade, comer comida de verdade, respeitar a individualidade biológica e compreender que a alimentação é uma das ferramentas mais poderosas para a saúde e a longevidade. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil

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