2026 chegou e postei na rede social que a palavra do ano fosse “empatia” (colocar-se no lugar do outro).
Não restam dúvidas de que é muito fácil dizer: “Não é bem assim”; “Você está exagerando”, “Isso é mimimi” “Você só fala disso” e por aí vai.
Ouço e ouvi muito disso, chegando a me sentir até culpado por determinados estados de coisas! A empatia que proponho para 2026 não é romântica; é política, pedagógica e necessária para sobrevivência da sociedade e, em assim sendo, se a palavra for mesmo essa, a minha ação será a “persistência” (rsrsrsrsrsrsrs...)
É certo que ela (empatia) não exige aplausos ou unanimidade, vez que caminha de mãos dadas com a persistência porque haverá resistência, cansaço, ironias e tentativas de silenciamento ou mudança de foco. Ainda assim, insiste porque a cada pequena mudança de olhar, cada consciência despertada, cada preconceito questionado é um passo concreto rumo a uma sociedade menos desigual e mais humana.
Sabemos que a distância da realidade dificulta a redução das desigualdades justamente pela não prática da empatia que, por sua vez, não é um destino onde se chega e se descansa; é um exercício permanente de “desaprendizado” para que se possa compreender a dor ou a luta do outro.
Ainda que se pratique empatia, é impossível reconhecer, avaliar e sentir exatamente o que sente a outra pessoa!
Nesse passo, já disse inúmeras vezes que, por mais próximo que estejamos, não alcançamos o sentimento em sua plenitude, apontando, como exemplo: Eu, homem, jamais conseguirei entender gravidez, menstruação, “tpm”, todavia com um pouco de paciência e proximidade poderei, no mínimo, tentar manter a calma, preservar e garantir respeito, compreensão e ajudar no que possível.
Como não poderia me furtar do compromisso quanto a questão racial, verificamos, sem muito esforço, inúmeras experiências, recomendações, dinâmicas, literatura ofertadas abundando e, mesmo assim, as alterações comportamentais são muito tímidas, ainda que louváveis mudanças no olhar, diante da massa que, infelizmente, se mantém irredutível em sua formação social e educacional.
Já recebi notícias de muitas pessoas afirmando que, a partir de minhas provocações e reflexões, (sem modéstia) passaram a enxergar de modo diferente que, para mim, é um ganho magnífico e, a partir de então, consigo notar brilho nos olhos de quem se permitiu “enxergar” de modo diferente a semente de um tempo novo. A mudança substancial pode ser lenta, quase imperceptível como movimento das placas tectônicas, porém, quando ocorrem altera permanentemente a paisagem humana e geográfica criando, inclusive, espaços onde caibam todos.
É também plenamente compreensível que as dificuldades para alcance de mudanças substanciais demoram a surtir efeitos diante da massificação dos conceitos excludentes, discriminatórios e educacionais, exigindo esforço mais elevado e, em consequência, mais demorados.
Eu sou otimista por natureza e confio nas mudanças, ainda que, certamente, não as virei em sua plenitude, todavia permanecerei, enquanto forças tiver, provocando, mesmo sabendo que o caminho é espinhoso e íngreme.
Como expus na crônica anterior, o silêncio acarreta tantos estragos quanto a própria ação. Assim, o incômodo que minhas provocações causam não é um erro de percurso, mas o sinal de que a engrenagem está sendo forçada a girar em outro sentido, vez que o tal silêncio que deveria nos assustar é terreno fértil onde a indiferença cria raízes.
Concluindo esse pensamento, reafirmo que “empatia” não seja slogan de virada de ano ou algo parecido e confortável para ornamentar discursos vazios e, como dizem: “apenas da boca para fora”. Ela exige deslocamento, renúncia e reconhecimento de privilégios, escuta ativa e, sobretudo, coragem para rever “certezas” que nos foram impostas como verdades absolutas. É desconfortável – certamente - porque nos obriga a sair da zona de conforto ou da bolha na qual nos encontramos.
Se do tempo surgem sementes quase invisíveis, cabe-nos regá-las diariamente com atitudes coerentes, seguras e humanas no sentido literal da palavra.
Eginaldo Honório é advogado, doutor Honoris Causa e conselheiro estadual da OAB/SP