Parece que (mais uma vez) estamos presenciando uma evolução no tratamento de uma doença. Eu digo “mais uma vez” porque, na história da medicina esses “saltos” ocorrem de tempos em tempos.
A obesidade é o protagonista do momento, mas está “em cena” há décadas. As medicações moduladoras de apetite e metabolismo conhecidas pelo grande público simplesmente como “canetinhas” (dado à sua apresentação e ao modo de aplicação), tornaram-se muito famosas pelo que oferecem: são extremamente eficazes, quase tanto quanto as cirurgias bariátricas, sem incorrerem nos mesmos riscos.
Fico muito feliz por esse avanço e espero que essa tecnologia se torne cada vez mais refinada e disponível para um público cada vez maior, atingindo o máximo de benefício para quem precisa. No entanto, acredito que mesmo com as “canetinhas” o tratamento da obesidade ainda vai ter um caminho tortuoso pela frente, até que saibamos lidar melhor com ela.
Não digo isso por simples crítica, mas baseado em observações anteriores. Alguns irão se lembrar que, há 40 anos, morria-se de úlcera estomacal. Eram muitos os casos, onde gastrites evoluíam para as temidas úlceras “perfuradas” e delas para hemorragias internas. Não existiam remédios eficazes na época para evitá-las e, com frequência, estômagos eram operados para prevenir quadros potencialmente fatais.
O volume de casos era tão estrondoso a ponto de existirem cirurgiões que somente operavam estômagos ulcerados, com várias cirurgias por dia, todos os dias da semana.
A revolução chegou em 1981, com o lançamento da Ranitidina, o primeiro remédio efetivo para tratar a gastrite. Em 1988, ela se tornou o remédio mais vendido no mundo inteiro e o volume de cirurgias (e mortes) por úlcera caiu absurdamente.
Descobriu-se depois a associação da gastrite com uma bactéria estomacal cujo tratamento e erradicação dela têm efeito curativo para essa doença. Passou-se a usar antibióticos para esse tipo de tratamento, algo impensável décadas antes. Hoje, é raro se encontrar algum quadro de hemorragia interna por úlcera perfurada.
Resolveu-se o problema completamente? Não, infelizmente. Houve um impacto na mortalidade, mas a presença de sintomas de gastrite, hoje, é a mesma, ou até mesmo maior na população geral, dado que o número de medicações consumidas só aumenta. Temos ainda sangramentos, bem menores, mas ainda presentes.
A presença dos remédios “herdeiros” do “trono” da Ranitidina, como o Omeprazol e seus “irmãos” mais novos, é uma constante na maioria dos receituários, mostrando que o problema modificou, mas não “sumiu”.
Sintomas são manifestações de necessidades vitais de sobrevivência. Não acredito que ocorram quando algo não funciona bem, mas que ocorram para alertar sobre atitudes que precisam ser tomadas para que algo continue funcionando corretamente. São manifestações de uma sabedoria corporal que é muito antiga e certificada por milhares de anos de evolução.
Um estômago secreta excesso de ácido para digerir alimentos “difíceis” e densos, assim como pode fazê-lo também quando nos obrigamos a conviver contrariados com atitudes sociais que consideramos abusos à nossa integridade moral. Dizemos, no jargão, “engolir o sapo”.
Da mesma forma, a obesidade é repleta de significados, que nos levam a colocar camadas de proteção gordurosa contra um “agressor” invisível. Remover estas camadas, sem analisar (e tratar) esse conteúdo simbólico, nos levará a uma repetição da mesma história.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia