Da pedagoga e escritora Cris Pizzimenti, o poema “Sou feita de retalhos”, que diversos atribuem a Cora Coralina, me impacta “...E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também .E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados...Haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma...”
Versos tão verdadeiros. Às vezes, me estranho ao sentir saudade de pessoas que não conheci, mas, por ouvir sobre elas, entraram em mim. Nosso pai era especialista em me fazer amar as pessoas que ele amara ou amava.
Em sua homilia de Natal, nosso querido Bispo Diocesano, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto iniciou desta maneira: “Natal é uma festividade atravessada de memórias. Ao longo dos anos, acumulamos lembranças que remontam aos tempos de nossa infância e perpassam diferentes épocas, lugares e pessoas. Nada nos humaniza mais do que um coração repleto de boas recordações. Por ser meio nômade e um pouco avançado na idade, perdi as contas dos meus diferentes “Natais”.
É o testemunho dos pedaços de outras gentes que carrega. Contou que ao celebrar o Natal com migrantes mexicanos nos Estados Unidos, viu, pela primeira vez a tradicional encenação conhecida como “Las Posadas”, onde Maria e José procuravam um abrigo para o nascimento de Jesus. E prossegue: “Ainda hoje, o Jesus migrante continua encontrando portas fechadas nas nações poderosas. Ainda hoje, a violência dos palácios de Herodes exclui os diferentes de seus banquetes solitários. Ainda hoje, Maria e José procuram estrebarias cálidas para o Menino Jesus nascer. O Natal é a vitória do amor solidário contra o egoísmo solitário. Nessa Noite Santa, abramos as portas do nosso coração para acolher o Menino Salvador”.
Jesus migrante do qual tantos se distanciam, também possui o que acrescentar.
As pessoas chegam de um modo ou de outro e se estamos abertos a ouvir, a permitir olhos nos olhos, deixam de ser desconhecidas para nos acrescentar. Dom Arnaldo demonstra com clareza que todos os que se aproximam, não importa o que carregam, merecem o seu acolhimento e abraço.
Gosto muito dessa sua maneira de ser. Há quem se escandalize com posturas assim, pela superioridade com que se enxergam no Reino do Céu. Recordo-me da fala de São João Crisóstomo sobre o Menino: “Vede onde está deitado: numa manjedoura, para que aprendamos que a humildade é o caminho do Céu”. Como escreveu em seu livro “O Amor nos Vê”, o Padre espanhol Francisco Faus (1931-2025), “A humildade derruba o ídolo do orgulho do ‘eu’ e escancara para deixar entrar nela Deus e os outros. (...) Deus quis nascer como uma pobre criança, deitada nas palhas de uma manjedoura, quis morrer humilhado, torturado e injuriado numa Cruz”.
Dizendo das reflexões do final de ano, o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, em uma de suas homilias, falou sobre os pastores irem às pressas a Belém, Ou seja, buscaram a Deus de imediato. Destacou que “Jesus nos trouxe a Luz, que passa pela Cruz, e a partir da Cruz, nos leva à Luz”.
Há pedaços de determinados indivíduos que não são fáceis de suportar, mas acrescentam em experimentar a Cruz que leva à Luz. Retalhos que se unem na ressurreição. Busquemos apressadamente o Senhor.
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista