OPINIÃO

O som nosso de cada dia


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Contrastes e padronização. Parece antagônico. E é. Um mar de pessoas de diferentes idades, gênero, classe social igualmente sentadas debaixo de guarda-sóis coloridos apreciando o vai e vem das ondas ou brincando, numa das praias paulistas do Guarujá.

O clima é de férias, mas a observação é inata ao ser humano ... e a audição também. Foi interessante observar o tipo de música. No Guarujá, não se ouve pancadão, mas é uma espécie de música, de gosto no mínimo duvidoso, que gruda no cérebro e fica insistentemente repetindo mesmo que você não queira.

Tive um professor de redação que dizia:

- Gosto não se discute. Mas mau gosto é plenamente discutível.

E o que dizer do repertório vazio, enaltecendo valores duvidosos que carregam a alma para degradação e precipício, sem contar aquelas que resumem o corpo feminino a objeto abjeto. O filósofo grego Platão alertava sobre como o ritmo e harmonia da música penetram profundamente na alma de um povo e a moldam. É experiência sensível e repetitiva, capaz de organizar, ou desorganizar o espírito. Sons são vibração, frequência, impacto constante sobre o corpo e a mente. Quando reduzidos ao excesso de repetição à pobreza harmônica e à estimulação mecânica, produzem almas moles, dispersas, incapazes de sustentar coragem, disciplina e discernimento. E almas assim não governam bem nem a si mesmas, muito menos a uma família, aldeia, cidade ou país.

O mau gosto generalizado está avançando como um raio no meio de uma população distraída com frivolidades e narrativas rasas, plugada 24 horas na telinha, publicando caras, bocas e cenas fabricadas, “parecendo”, esquecendo do ser. A decadência estética que presenciamos dia a dia é o primeiro sintoma de um colapso maior. Antes que a política apodreça, a cultura já foi corrompida, diz Platão no livro “A República”.

Segundo o filósofo, uma população treinada diariamente por sons pobres em variação, por batidas previsíveis e por frequências que anestesiam mais do que despertam, aprende a aceitar o raso, o repetitivo e o vazio também nas relações humanas, na moral e na política.

A cultura é o retrato fiel de uma sociedade, sem filtro, nem Photoshop. O declínio ético e moral não cai do céu. Ele entra pelos fones de ouvido, se instala no corpo pela repetição sonora e é normalizado pelas playlists das paradas de sucesso que as consagram ao topo.

O mau gosto somado à decadência estética e moral nos leva ao empobrecimento da linguagem como reflexo do empobrecimento do pensamento. A palavra vira ruído, o diálogo confronto, o silêncio um vazio abissal. Quando o pensamento se apequena perde a complexidade, a capacidade de elaborar, de administrar conflitos e sustentar ideias.

Aquilo que consumimos diariamente, desde sons, imagens ou narrativas, educa nossos sentidos, molda nossos afetos e treina nossa percepção do mundo. Cultura não é entretenimento inofensivo, mas sim pedagogia invisível, diz Platão, já profetizando: antes de qualquer colapso institucional, há um colapso sensível. Quando uma sociedade perde o ouvido para a harmonia, confunde o olhar para a verdade e para o bem comum. O que começa como “apenas música” termina como incapacidade de escuta, de diálogo e de discernimento.

Você concorda?  Qual é a sua playlist do momento?

Rosângela Portela é jornalista e mentora em comunicação

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