Romance de Jeferson Tenório, “O avesso da pele” é narrado por um jovem negro, Pedro, que perdeu o pai assassinado numa canhestra abordagem policial. O livro trata, sim, de racismo e de violência policial, mas o assunto que me pareceu central nessa história é o dos relacionamentos pessoais, com seus conflitos, afetos, deslizes e todo o combo que envolve a vida a dois. O narrador conversa com o pai ausente, recompondo em tiras a trajetória de sua família. Família em que há relacionamentos interraciais, todos vivendo sob os olhos racistas e desconfiados do Sul do país (em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul). O narrador está em Porto Alegre, de onde conta a respeito do primeiro casamento de sua mãe; do tumultuado casamento de seus pais, das separações e reatamentos, e da família desde sempre fracionada.
Diz o narrador, a respeito do pai: “Com o passar do tempo tinha a impressão de que as possibilidades de sentir dor iam se ampliando e limitando sua liberdade. Viver passou a ser uma questão de evitar a dor a qualquer custo”. O pai de Pedro é professor de adolescentes e jovens adultos, em escolas públicas do Rio Grande do Sul. Há duas décadas na sala de aula, sofre com o desinteresse de seus alunos, garotada dispersiva e desatenta. Até o dia em que resolve levar para a sala de aula um sujeito, conhecido seu, que matou duas pessoas. Uau! Levar um assassino para conversar com os alunos? O leitor precisa saber que o professor leciona literatura e que o assassino morou em São Petersburgo, no século 19, na antiga Rússia czarista.O romancista revela habilidade ao contar a história em fragmentos bem colados, que relatam outros relacionamentos dos pais do narrador. Como aquele do pai, negro, com jovem branca, e das muitas histórias, situações e constrangimentos por que passaram.
Lançado em 2020, “O avesso da pele” ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance de 2021, o mais prestigiado da literatura brasileira. Incluído no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação, “O avesso da pele” foi alvo de campanha difamatória e de censura. Secretarias de Educação de Goiás e do Paraná chegaram a vetar o livro. Houve quem alegasse “linguagem imprópria” para jovens, assim como “conteúdo pornográfico” (quem procurar pornografia nesse romance vai se decepcionar). Diante da gritaria contrária à censura, as secretarias reverteram a decisão e o livro retornou às (parcas) prateleiras de bibliotecas de escolas públicas. Em entrevista, o escritor afirmou que a censura apareceu porque o livro trata de dois tabus da sociedade brasileira: a ditadura militar (com seu filhote raivoso conhecido por violência policial, preferencialmente voltada contra pretos e pobres)e o racismo estrutural do país. Temas cercados de interdições.
Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado no Rio Grande do Sul, estreou em 2013 com o romance “Beijo na parede”. Em 2018, lançou “Estela sem Deus”. Mestre em Literaturas Luso-africanas e doutor em Teoria Literária pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, vive em Porto Alegre.
Fernando Bandini é professor de Literatura