OPINIÃO

Maduro é indefensável. Trump, também

Por Guto Calazans | O autor é Publicitário e Jornalista, Marketing de Varejo pelo IESB, MBA em Marketing Político e Pesquisa pela ESAB Pós Graduação em Estratégias Competitivas: Comunicação, Inovação e Liderança Pela UNESP/Faac
| Tempo de leitura: 3 min

Nicolás Maduro é indefensável sob qualquer ótica democrática. São mais de 13 anos de um regime autoritário marcado por assassinatos políticos, perseguições, fome, colapso institucional e intolerância. A Venezuela deixou de ser uma democracia há muito tempo e se transformou em um Estado capturado por um grupo que governa pela força, pelo medo e pela repressão. Isso é fato, amplamente documentado por organismos internacionais, ONGs e pela própria diáspora venezuelana espalhada pelo mundo.

Nada disso, no entanto, autoriza a tomada de um país “de assalto”.

Causa, no mínimo, estranheza a narrativa apresentada por Donald Trump ao afirmar que o Exército americano teria entrado na Venezuela e prendido Maduro em “47 segundos”. Ditadores não sobrevivem por mais de uma década sem aparato de segurança, sem inteligência militar, sem estruturas de defesa, sem bunkers, sem aliados internos e externos. A história recente mostra que regimes autoritários caem por colapso interno, pressão popular, negociações ou longos conflitos não como em um roteiro de Hollywood envolvendo CIA e Delta Force.

O tom cinematográfico do anúncio não é apenas fantasioso; é perigoso.

Mais grave ainda foi a declaração seguinte: Trump afirmou que os Estados Unidos irão “administrar” a Venezuela e permitir que empresas americanas explorem o petróleo do país. Aqui, a questão deixa de ser Maduro e passa a ser soberania. Trata-se de usurpação. Uma atitude insana, já repudiada por diversas democracias do mundo, porque rompe com princípios básicos do direito internacional: autodeterminação dos povos, integridade territorial e não intervenção.

A pergunta é inevitável: por que os Estados Unidos não invadem a Rússia?

Vladimir Putin está no poder há mais de duas décadas. Persegue opositores, controla a imprensa, interfere em eleições, invade países vizinhos e governa com mão de ferro. Em essência, faz o mesmo ou pior que Maduro. A diferença não é moral, é geopolítica. A Rússia é forte, possui arsenal nuclear, influência global e capacidade de resposta. A Venezuela, fragilizada, apesar de possuir a maior reserva de petróleo do mundo, tornou-se alvo fácil.
Invadir um país fraco, rico em recursos naturais, não é libertação: é violação. Viola direitos, cria um precedente extremamente perigoso e acende um alerta vermelho para toda a América do Sul. Hoje é a Venezuela; amanhã, qualquer nação que tenha petróleo, terras raras, aço ou água pode ser “administrada” em nome de uma suposta ordem.

Trump trata a América do Sul como quintal. Um território onde se entra para colher petróleo, minerais estratégicos e vantagens econômicas, ignorando povos, histórias, culturas e soberanias. Esse comportamento não é novo na política externa americana, mas nunca deixa de ser alarmante quando normalizado.
Talvez o mais preocupante seja ver brasileiros comemorando essa atitude. Nessas horas, é impossível não lembrar das aulas de Educação Moral e Cívica, quando se falava sobre patriotismo, cidadania e soberania nacional. Celebrar a violação da soberania de um país vizinho é desconhecer política internacional, mas, sobretudo, é desconhecer o valor da própria soberania brasileira. Quem aplaude hoje pode chorar amanhã.


Maduro deve, sim, pagar por seus crimes. Deve responder por assassinatos, fome, destruição institucional e autoritarismo. Mas isso cabe ao povo venezuelano, à pressão internacional legítima, a tribunais e à história não à ocupação estrangeira disfarçada de libertação.

A Venezuela precisa escolher seu caminho. Sem ditadura. Sem usurpação. Sem salvadores armados.

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