Jundiaí chega a 2026 com um orçamento robusto de R$ 4,68 bilhões e uma sinalização clara de prioridade para áreas sensíveis à vida da população: Saúde, Educação e Segurança Pública. Em tempos de demandas crescentes e expectativas ainda maiores, o volume de recursos por si só não garante transformação. O que fará a diferença, de fato, será a qualidade das escolhas e a coerência da gestão.
O salto na área da Saúde chama atenção. Com previsão de R$ 1,16 bilhão, o setor recebe um aumento expressivo em relação a 2025. Esse movimento é positivo e necessário. A realidade dos municípios brasileiros mostra que a Saúde é a primeira porta de entrada das angústias sociais: filas, exames represados, falta de especialistas, saúde mental e o envelhecimento da população. Investir mais não é luxo — é obrigação. No entanto, o desafio não está apenas em gastar mais, mas em gastar melhor, ampliando a atenção básica, reduzindo gargalos e modernizando a gestão. Lembrando que enfrentamos na pasta a mazela do pacto federativo, cada vez mais os municípios arcam com obrigações do Estado e da Federação no custeio do SUS, com suas tabelas e procedimentos defasados.
Outro ponto relevante é o avanço da participação popular. Mais de 2 mil contribuições e reuniões nos bairros indicam um esforço de escuta, algo ainda raro na cultura política brasileira. A população quer ser ouvida, mas espera, sobretudo, que suas falas se transformem em decisões concretas. Sem transparência contínua e devolutivas claras à sociedade, a participação corre o risco de virar apenas um ritual sem impacto real.
Entretanto, um dado que merece reflexão mais profunda é o aumento do orçamento da Câmara Municipal. O repasse ao Legislativo deve saltar de R$ 48 milhões em 2025 para R$ 62,3 milhões em 2026 — um crescimento de cerca de 30%. Em um cenário de tantas demandas sociais urgentes, é legítimo que o cidadão questione: esse aumento se traduzirá em mais eficiência, fiscalização e leis de melhor qualidade? Ou será apenas a expansão de uma estrutura já distante do cotidiano das periferias e dos bairros mais vulneráveis? Para onde irão estes recursos?
O grande teste do orçamento de 2026, porém, está além dos números setoriais. Jundiaí ainda carrega desafios estruturais que não se resolvem apenas com planilhas: a desigualdade social persistente, o déficit habitacional e a dificuldade de criar empregos mais bem remunerados. Sem políticas robustas de qualificação profissional, atração de investimentos e estímulo à inovação, a cidade corre o risco de crescer sem distribuir oportunidades.
Eu, particularmente, gosto do refrão do atual prefeito, a Cidade da Gente. Mas, para que isso aconteça, precisamos de coragem política de priorizar quem mais precisa e transformar todas estas cifras em dignidade. Eu aposto que vai dar certo. E você?
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ