Desta vez precisei dar a mão à palmatória para o “mais do mesmo” que os algoritmos nos bombardeiam após pesquisamos sobre qualquer assunto. Encontrei uma pérola da literatura brasileira, do escritor nordestino Ariano Suassuna, ferrenho contestador e crítico da ideia da “aldeia global” proposta por Marshall McLuhan, assunto que tratei nesta coluna na semana passada.
Suassuna contava em prosa e verso os causos e a riqueza da cultura popular nordestina, sempre com bom humor, sua marca registrada. Defendia as raízes e a identidade cultural brasileira, valorizando as tradições de nossa terra, especialmente a oral. Contrapôs-se tenazmente a McLuhan, pois acreditava que o modelo de comunicação em “rede” levaria a massificação da cultura centrada nos meios eletrônicos e nos padrões norte-americanos.
O escritor brasileiro nos deixou fisicamente em 2014, mas um de seus legados nos traz a reflexão sobre manter o equilíbrio entre a profundidade identitária (local) e o alcance global (a rede). Podemos traçar um paralelo entre a Comunicação com Identidade, de Ariano Suassuna, com Comunicação Globalizada, de Marshall McLuhan.
Suassuna traz o enraizamento cultural como pilar da comunicação, por meio da cultura popular, da literatura e teatro de cordel, da oralidade, tradição e identidade regional, dando ênfase ao conteúdo simbólico acima da tecnologia. Para McLuhan “o meio é a mensagem", ou seja, a percepção da realidade depende da forma como a informação é transmitida. Tem uma visão positiva da globalização e das mídias como expansão da consciência coletiva, destacando o impacto tecnológico e dos meios sobre o conteúdo.
A contenda Suassuna X McLuhan, dois visionários, antecederia o impacto que a cultura digital impôs ao mundo. O crescimento exponencial das mídias sociais, a alta velocidade que operam e a lógica do algoritmo reforça as bolhas de opinião e habitua os usuários a recompensas instantâneas – likes, curtidas, views. O imediatismo trouxe a reboque a falta do pensamento analítico, bem como, o aprofundamento reflexivo e o raciocínio dialético – as argumentações se tornaram superficiais, evasivas e muitas vezes sem propósito.
Embora tenhamos à disposição grande aparato tecnológico, será que estamos realmente nos comunicando melhor? Parece que convivemos com alguns equívocos: estamos confundindo agilidade com superficialidade, sendo rápidos, mas não assertivos. A exposição pessoal virou regra. Público ou privado? O privado praticamente deixou de existir. Estamos expostos, mas a comunicando sem propósito.
Voltando ao embate Suassuna X McLuhan, talvez precisemos ficar mais atentos ao ponto de equilíbrio e utilizarmos o que de melhor os dois pensadores nos deixaram como legado. Suassuna nos mostra a força da narrativa autêntica e identitária e McLuhan a potência dos meios digitais. Sempre, é preciso seguir em frente tomando como base as experiências do passado, o que foi bom, atualizar e inovar tendo em vista o tempo presente e que não foi bom, ter como exemplo do que não precisa ser repetido. Parafraseando o filósofo Confúcio que dizia há quase três mil anos: “tempos caóticos são interessantes”, já que promovem a reflexão, inovação, crescimento material e intelectual. Essa frase nunca foi tão atual.
Rosângela Portela é jornalista, mentora e facilitadora
(rosangela.portela@consultoriadiniz.com.br)