OPINIÃO

Sair da ilha para ver outras ilhas

09/06/2024 | Tempo de leitura: 4 min

No livro “O conto da ilha desconhecida”, lançado em 1997, o escritor português José Saramago narra a história de persistência de um homem que, ao desejar obter um barco para sair em busca de uma ilha desconhecida, uma aventura temida - e dificultada - por muitos que se viam estacionados na burocracia e no comodismo, conquista, ao ultrapassar a neblina que obstrui seu campo de visão, o próprio objeto de sua jornada: a realização de um grande sonho ao ancorar em um porto seguro.

Vem dessa obra a frase “sair da ilha para ver a ilha”, que simboliza, entre outras interpretações possíveis, a experiência humana de se ver sob outra ótica para se compreender melhor enquanto um ser complexo. E foi com a expectativa de conseguir esse feito, de forma muito alinhada junto à minha analista, com quem eu venho trabalhando o conceito de ilha-mar-emoções, que eu decidi tirar alguns dias de férias depois de anos trabalhando sem descanso, num deles acometida por um Burnout.

Com uma mala pequena de mão contendo um par de chinelos, roupas leves, algumas poucas trocas de biquínis e vontade de viver, eu embarquei em um avião rumo a Jericoacoara, no Ceará. Me fora prometido por uma amiga que lá me hospedou que eu lançaria ao mar todas as minhas angústias existenciais e que isso seria tão bom que eu jamais desejaria outra coisa na vida, um cenário que soou como canto de sereia em meio ao meu estado de estresse pós-traumático e luto.

Poucas coisas foram tão prazerosas nos meus 33 anos de história do que, ao chegar àquele paraíso na Terra, tirar meu all star preto de cano alto, que calcei aos 15ºC de São Paulo, e colocar os pés na areia. Naquele primeiro momento muito do que pesava já amenizou, e eu pude saborear um pequeno deslumbre de perceber a simplicidade da vida na brisa quente e úmida, na cerveja gelada servida no legítimo copo americano e no sol, bola imensa e amarela, se pondo no horizonte do mar. “Alguma dúvida de que a terra é plana vendo isso?”, perguntou minha amiga, que se sentava ao meu lado com seus próprios fantasmas a serem exorcizados com a natureza também. Rimos muito e pedimos mais uma garrafa.

Ao longo dos dias que passei naquele lugar, percebi como tudo, absolutamente, é uma massa viva. Até as pedras, que não são, machucaram meus pés durante uma caminhada. O suor saindo pelos poros dia e noite. A barriga estufada depois de um belo prato de polvo à vinagrete. O desarranjo nas cadeiras após horas dançando forró e samba na noite nordestina. A queimação de uma água-viva que pegou minha perna logo no primeiro dia de viagem e me fez sair do mar ventando em um misto de dor, curiosidade e gargalhada. Minha própria autossabotagem em ter pausado em tempos de produtividade incessante. Vê como tudo pulsa?

Observando tudo isso, consegui, enfim, sair das largas ondas nas quais estivera afogada e apenas boiar. “Você não pode controlar a água, assim como não vai evitar sentir suas emoções”, dissera minha analista dias antes. Apesar de ser uma paciente teimosa, fui exemplar e me permiti apenas olhar, de fora, minha própria ilha, tal qual um espectador assistindo ao filme “Divertidamente”, outra analogia exaustivamente usada por mim nas sessões de terapia. Eu não vi tudo, e nunca verei, mas vi o suficiente. E ao final da minha viagem, com alguns quilos a mais mas purificada por sal e sol, eu estava pronta para recomeçar a remontar as peças do meu quebra-cabeça.

Peço um sincero perdão à minha amiga que pensou que Jeri me fisgaria a ponto de eu não querer mais voltar à minha rotina cosmopolita. Largar tudo pra viver ali, de forma descomplicada e talvez vendendo minha arte na praia, é mesmo tentador. Mas eu desejei voltar. Porque me dei permissão para sair da ilha de forma tão bonita, que não somente pude ver a ilha, mas perceber outras muitas possíveis de serem exploradas, e agarrei esse sopro de vida com tanta força que tive que pegar o avião de volta pra vivê-las do meu jeito. E eu adoraria ter a chance de tomar um café com Saramago para dizer que eu também realizei um sonho: atraquei no meu porto seguro.

MARIANA MEIRA é jornalista, cantora e editora-chefe do Jornal de Jundiaí (mmeira@jj.com.br).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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