OPINIÃO

Tarde demais

07/06/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Mulher inteligente e bonita. Toda a juventude foi cercada de amigos e muitos galanteios. Nos estudos, a convicção de uma carreira brilhante. Como toda doce moça aspirava aos encantos do amor. Haveria de encontrar com alguém com quem pudesse compartilhar esta plena felicidade.

Essas histórias de amor, muito fáceis de encontrar em novelas e filmes, diferenciam-se em muito da realidade da sua vida. Ah! O trabalho, os estudos e todo esse corre-corre no cotidiano vedavam os seus olhos para outras coisas mais agradáveis.

Não obstante, conheceu um jovem garboso, a quem se dedicou com toda força da alma. A paixão pelo namorado era agora toda a sua vida. A vida entre os dois assim pedia. Pareciam que tinham nascido um para o outro. Um casal perfeito.

Com o passar de algum tempo, o fogo do amor do jovem enamorado começou a enfraquecer. Uma frágil chama tentou resistir, mas não foi suficiente. Iludido por perfumes sem essência, o homem deixou-se levar pelos aromas falsos da existência.

Sonhava a vida com novos amores. Acreditava que sempre encontraria meios para curar qualquer dor ou esquecer o arrependimento de abandono à pessoa amada. Não temia o destino de ficar solitário.

As lágrimas da companheira foram inevitáveis. Não poderia deixar de lado tudo aquilo em que acreditava. Sacrificara sua vida e agora sentia uma realidade que nunca tinha vivido.   

Compreendeu, entretanto, que teria que superar a complicada crise. Sentiu a mágoa que feria seu coração. Sentiu uma triste névoa úmida a cair em toda a sua alma. Mutilou sua voz de desespero. Calou o seu sofrimento.

O tempo transcorreu. Seguiu em busca de um novo destino. Não se deixou abater. A cada dia que passava, cobrava de si mesma mais ação e energia. Logo as luzes do seu talento foram de novo acesas. 

Despiu-se, então, das vestes do passado. Livrou-se da luxuosa moldura, com a foto do casamento, sobre a penteadeira. Encarou a vida, face a face, como deve sempre ser enfrentada. Voltou aos estudos. Melhorou sua autoestima. Tornou-se uma nova mulher, mais madura, menos ingênua e mais bela. Não lhe faltaram os acenos de novos amores. Compreendeu que o significado maior da vida é sua beleza de viver.

Dia desses, pensando em seduzir seus sentimentos, no Dia dos Namorados, o homem que ela amara lhe telefonou. Cansado e fatigado pelo cinismo de aventuras amorosas, quedou-se ao seu único amor. Enfermo de tantos revezes, só agora compreendia que a cura dos seus males encontrava-se no feliz passado.

Ela, no entanto, percebeu que o havia esquecido. Nem se lembrara de sua voz. Sua lembrança fora sepultada há muito tempo. O sentimento se apagara em seu coração. Nunca lhe quis mal. Declinou, com gentileza, do convite.

Ele, no entanto, insistiu. Tanto insistiu que se marcou um encontro. Esperançoso, fez reserva no romântico restaurante, em que a conheceu. Queria seu perdão. Recordar de um passado que só fora seu. Queria tornar a viver juntos e voltar a ser feliz.

Ao entrar no romanesco restaurante, dirigiu-se à mesa reservada. Embaixo de um castiçal de prata, ornamentado com uma linda vela vermelha acesa, preso em uma de suas pontas, encontrou um pequeno bilhete, com os seguintes dizeres: “Voltaste tarde demais.”

Guaraci Alvarenga é advogado

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