OPINIÃO

Meu irmão,eu mesmo

29/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Segundo volume da trilogia de memórias do escritor João Silvério Trevisan, "Meu irmão, eu mesmo" é um livro difícil de ser deixado de lado. O "irmão" a que o título se refere é Cláudio José Trevisan, bem conhecido dos jundiaienses. Por duas décadas, Cláudio esteve à frente da livraria Dom Quixote, na rua do Rosário, no centro de Jundiaí. O livreiro morreu em 1996, aos 48 anos, vítima de um câncer linfático. A relação entre o escritor e seu irmão é o mote principal do livro, mas não o único. João Silvério conta de sua vida pessoal, da infância em Ribeirão Bonito, da conturbada relação com o pai, dependente químico de álcool. E de sua trajetória de cineasta, roteirista, tradutor, dramaturgo e escritor profissional. Fala também de sua militância como defensor dos direitos humanos. João Silvério tornou-se expoente na luta pelos direitos de homossexuais, o que lhe trouxe inúmeros perrengues (imagine o leitor alguém tratando, na asfixiante década de 1970, durante a ditadura imposta ao Brasil, de sexualidade e homossexualidade). Num dos muitos trechos bonitos do depoimento, João anota: "Quando lhe contei que eu tinha amadurecido ao me aceitar como homossexual, sua reação veio num gesto de acolhimento. Comovido, você me abraçou com alegria autêntica e confessou: 'João, eu já te admirava antes, agora te admiro mais ainda, por tua autenticidade e coragem de ser'. Senti aquele abraço como a expressão mais legítima do que se pode entender por fraternidade. Ser acolhido de modo tão incondicional por você, meu irmão, me trouxe a certeza de que eu estava menos só no mundo".

Soropositivo desde 1992, quando carregar consigo o HIV, o vírus da aids, era uma sentença de morte, João Silvério sentiu os sintomas pesados da moléstia. Assim como tornou-se voz ativa no combate não só à disseminação da doença como também no enfrentamento dos preconceitos. O escritor e outros militantes encararam a briga. João anota: "Essa me pareceu a pior parte da epidemia da aids: a doença social que ela suscitou, composta de preconceitos e intolerância moralista, ainda mais assustadora por trazer à tona ondas de ódio subjacentes a um fascismo mal disfarçado".

Nesses momentos difíceis, Cláudio foi sempre o confidente, o ouvinte atento e o amigo. Até que o jogo vira. E João, o que estava no corredor da morte, recebe a notícia do diagnóstico de Cláudio: câncer linfático, agressivo e letal. São dois anos ao lado de um paciente ainda jovem, na faixa dos 40, marido da Ziza, pai de duas filhas adolescentes, com uma enfermidade ameaçadora. Meses seguidos de convivência intensa dos irmãos. De cirurgias, tratamento quimioterápico, efeitos colaterais devastadores, melhoras efêmeras e recidiva. E da notícia indesejada do fim próximo. "Como vai me fazer falta o sorriso luminoso do meu irmão e sua maneira de compartilhar a minha dor. (...) Era tão consoladora a sua empatia. Ao mesmo tempo tão assustadora, por sua intensidade. (...) Morro uma parte de mim", escreve João Silvério. O livro é comovente, testemunho de um amor fraterno. Traduzido pela mútua sensibilidade dos irmãos.

Fernando Bandini é professor de literatura (fpbandini@terra.com.br)

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