OPINIÃO

Com açúcar, com afeto

21/02/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Há tempos, Chico Buarque de Holanda anunciou que não vai mais cantar "Com açúcar, com afeto" ("Com açúcar, com afeto/fiz seu doce predileto/pra você parar em casa..."). A canção da década de 1960 traz uma submissa voz feminina disposta sempre obedecer a seu marido, o sujeito que faz e desfaz nesse relacionamento que hoje seria adjetivado como "tóxico". A canção retrata comportamentos de uma época nem tão distante e ainda presentes no dia a dia contemporâneo. O compositor tem todo o direito de fazer o que quiser com suas criações. Vejo muitas das canções de Chico Buarque como retratos de um certo universo privado, de um espaço particular. Retratos dos últimos 60 anos do Brasil. Por sorte, o tempo avança e vem alterar costumes e tradições. Mudam-se vozes, acrescentam-se temas, mas alguns assuntos e procedimentos em Chico Buarque são recorrentes. Tem o compositor do engajamento político, tem o das musas fascinantes, o dos sambas inesquecíveis. Vou guardar cada um para outras ocasiões (não se pode desperdiçar assunto). Fico hoje com o letrista de vozes femininas, o que escreveu "Olhos nos olhos", "Ana de Amsterdam", "Basta um dia", "Atrás da porta", "Tatuagem", "Bastidores"... O repertório é longo e variado.

Em "Atrás da porta" ("Quando olhaste bem/ nos olhos meus/E o teu olhar era de adeus...") a separação irreversível mantém a mulher prostrada e destruída. A cena se repete em "Bastidores", em que a personagem não supera o fim amoroso ("Chorei, chorei, até ficar com dó de mim..."). Mas aparecem também as vozes do recomeço, como a de "Olhos nos olhos" ("Quando você me deixou, meu bem/ Me disse pra eu ser feliz...). O que parece ser destino irreversível ("mas depois, como era de costume, obedeci") muda de figura, com o recomeço, a superação e a vingança ("quando você me quiser rever/Já vai me encontrar refeita/Pode crer (...) E tantas águas rolaram/Tantos homens me amaram/ Bem mais e melhor que você"). Punhal afiado no peito do ex -- e se ele ainda se acha proprietário, o golpe também atinge sua testa.

Em "Basta um dia", da peça teatral "Gota d'água", a vingança aumenta de tamanho. Adaptação do clássico grego "Medéia", a versão contemporânea de Paulo Pontes e Chico Buarque embute esse monólogo cantado pela protagonista Joana. Diante do todo poderoso Creonte, chefão do pedaço, Joana pede somente um dia ("Pra mim, basta um dia, não mais que um dia, um meio-dia..."). E nesse dia, o caldo entorna, pois Joana toca o terror (alguém já disse que "não há força maior na natureza do que a fúria de uma mulher desprezada"). Mas não só de ressentimentos, corações partidos e vinganças vivem essas vozes. Aparece também a paixão intensa, aquela que sobe até camadas estratosféricas, como em "Tatuagem" ("Quero ficar no teu corpo/Feito tatuagem..."), "Bárbara" ("Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas/E mergulhar no poço escuro de nós duas..."), ou "O meu amor" ("O meu amor tem um jeito manso que é só seu/ Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos/Com tantos segredos lindos e indecentes..."). Vozes de um talento único chamado Chico Buarque.

Fernando Bandini é professor de literatura (fpbandini@terra.com.br)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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