Os encontros proporcionados pelo Natal são esperados o ano todo por algumas famílias. A data, repleta de significados, costuma ser celebrada com reuniões, seja na ceia da véspera ou almoço do próprio dia. Com isso, a expectativa pela chegada do fim do ano costuma ser um combustível para muitas pessoas e, passada a data, uma preparação para mais um ano, como uma nova carga de ânimo.
Certa vez, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma poesia na qual chama atenção à divisão do tempo, a renovação que o fim do ano causa, fazendo com que o ciclo seguinte de fato parta de um princípio. "Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,/a que se deu o nome de ano,/foi um indivíduo genial./Industrializou a esperança/fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos./Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez/com outro número e outra vontade de acreditar/que daqui pra adiante vai ser diferente (...)" Só que essa renovação não é apenas figurada para algumas famílias, acontece de maneira literal, quando os indivíduos se reúnem para celebrar as festas do fim do ano.
EXPECTATIVA
A família de Mirian Pujol é um exemplo disso. Ela aguarda o Natal para visitar o filho, que mora nos EUA. "Vou visitar meu filho, que mora lá há 14 anos. Sempre que posso, vou para lá. Este ano, fui em abril, porque meu filho teve uma filha e ela completou um ano em abril. Mas, todo ano, eu e meu esposo fazemos um sacrifício para ir no Natal. Neste ano, vamos eu, meu marido, minha filha, meu genro e meus netos. Minha irmã já está lá com a família dela também", conta.
Como o encontro é raro, Mirian faz questão de que ocorra nesta época. "Eu interpreto o Natal como 'família', porque não é possível estarmos juntos durante o resto do ano. Esse simbolismo do Natal sempre foi importante para mim. Fui criada na doutrina católica e é importante estar junto. Venho de uma família onde meus avós já praticavam isso, recebiam os filhos, noras, os netos e na época servia-se apenas capelete com todos reunidos à mesa", recorda.
A época também é significativa para a família de Nicholas Henrique. Seu pai tem 12 irmãos e todos os membros se reúnem apenas no Natal. "A maioria mora em Jundiaí mesmo, mas em bairros distantes, tem uma tia minha em Campo Limpo Paulista, uma em Caieiras e um em Itupeva, então na correria eles acabam não se vendo. Minha avó, quando era viva, fazia questão de juntar todo mundo no sítio que ela morava, e se tornou uma tradição que a gente manteve depois que ela morreu."
A avó de Nicholas faleceu em 2007, mas a tradição já era tão natural que permaneceu intacta. "É meio orgânico, todo mundo sabe que no dia tem que estar lá. Quem vai mais cedo, leva um prato, junta todo mundo para o almoço, faz churrasco, e mais gente vai chegando depois. Todo mundo vai pelo menos em uma parte do dia", comenta.
E Nicholas aproveita o Natal para ver e conversar com todos os familiares, mesmo sendo muitos. "São 13 irmãos na família do meu pai. É quase uma rotação por estações, fica um pouco em cada estação, conversa um pouco de cada assunto, foge das polêmicas e vai rodando. Mantemos a tradição para honrar a memória da minha avó. Todo mundo quis carregar essa tradição que ela fazia questão", diz.