A preocupação com o futuro do planeta não pode ser restrita aos governos. Estes, numa constatação empírica e talvez singela, estão mais interessados em práticas mais imediatistas e interesseiras. O tema da mudança climática deve motivar todas as pessoas de bem. Afinal, de nosso comportamento agora dependerá a própria sobrevivência da humanidade. E não temos dado bons exemplos. O Brasil é campeão na devastação da cobertura vegetal, na poluição do ar, da água, do solo e de todos os espaços físicos, é top em desperdício e em descarte. Um dos maiores produtores de resíduo sólido - (eufemismo para denominar o nosso conhecido "lixo") - e líder na produção de iletrados.
Ainda temos milhões de analfabetos em sentido estrito (ou completo) e outros tantos milhões de analfabetos funcionais. Conseguem soletrar, rabiscar o nome, porém não sabem o que estão lendo, nem são capazes de reproduzir um texto com outras palavras. Não leem e não se interessam pela leitura. Têm um limite muito estrito de competência.
Uma estratégia saudável para tentar reverter um quadro preocupante é adotar a agenda ESG, da sigla em inglês que propõe um trato simultâneo e conciliado de cuidado com o ambiente (Environment), redução das desigualdades sociais e governança. Quanto aos dois primeiros, não é necessário explicar. Somos cruéis em relação à natureza e não nos emocionamos com as iniquidades de uma nação em que trinta e três milhões de irmãos passam fome diariamente.
Já o "G" do ESG é a governança, que pode ser traduzida por uma gestão inteligente dos próprios interesses. A busca da eficiência. A procura de obter os melhores resultados com o uso do esforço possível. É o uso do bom senso, da racionalidade, da inteligência ainda humana, antes de ser substituída pela inteligência artificial.
A iniciativa de contemplar ESG em todas as atividades deve resultar de uma consciência desperta para o maior perigo que ronda a humanidade. E há iniciativas bem interessantes em curso. Uma delas é a Coca-Cola, em parceria com a Abrasel-Associação Brasileira de Bares e Restaurantes e SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas empresas. O trio lançou uma capacitação em ESG para os pequenos empreendedores em bares e restaurantes.
O Projeto se chama "Tempero Sustentável" e está disponível na internet, no site cocacoladaumgasnoseunegocio.com. São pílulas em vídeo, divididas em quatro blocos. Explicação de conceitos básicos e questões práticas rotineiras.
Isso serve para todos os pequenos empreendedores e é uma preocupação fazer com que a juventude encontre fórmulas de sobrevivência digna, diante do desaparecimento de tantas profissões e do declínio de outras tantas. O curso ensina organizar e gerir contas e atenção para pequenas questões, como reduzir o desperdício de água e energia, facilitar a reciclagem, incentivar boas práticas. Comprar de pequenos produtores, incentivar a formação de uma cadeia, para diversificar o cardápio, com vistas a atender uma clientela vegetariana ou vegana.
O intuito foi trazer informações plausíveis para a realidade dos pequenos negociantes. Ideias como a economia circular, que garantem ganhos e reduzem desperdício. Reduzir o gasto de óleo, vender o óleo usado, reciclar vidro e alumínio, tudo pode diminuir o preço do produto.
A Prefeitura deveria se empenhar nisso também, inclusive com vistas ao incremento do turismo, verdadeira indústria que pode salvar economias em crise e que abre potencial enorme de possibilidades para as novas gerações. ESG não é para discurso: é para valer!
José Renato Nalini é diretor-geral de universidade, docente de Pós-graduação e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras (jose-nalini@uol.com.br)