OPINIÃO

Se não houvera ressurreição...


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Domingo da ressurreição, a festa mais importante da Cristandade. Por quê? A resposta vem de São Paulo Apóstolo: se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé. Só se justifica assumir a religião e suas imposições, muitas delas aparentemente exageradas, se o destino de nossa individualidade for a sua preservação intacta, por toda a eternidade. Isso parece incrível e, de tão absurdo, só pode ser realidade.

É muito séria a promessa de Cristo: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Quem me segue não morrerá para sempre. Em Casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, não vos teria dito. São várias exteriorizações de uma só verdade: os humanos são imortais. A peregrinação por este sofrido Planeta é apenas uma fase na trajetória do espírito.

A grandiosidade da Páscoa resta obscurecida numa era narcisista, consumista e imediatista como aquela em que nos foi dado viver. Existe a preocupação com os ovos de chocolate para as crianças. Os dias emendados a partir de quinta-feira para o setor público, mas o tríduo sexta-sábado e domingo para os demais. Tempo de lazer, descanso e viagem. Projetos banais e superficiais.

Pouco se reflete a respeito desse mistério: vencer a morte! Essa inevitável companheira que põe fim à nossa existência e que é implacável. Ninguém é poupado dela. Nem o próprio Cristo o foi!

Por mais que se tente enganar o outro e se enganar a si próprio, a passagem pela morte é assustadora. Se nos movesse a fé de verdade, não nos apavoraríamos tanto. Mas somos frágeis. Inseguros. Descrentes!

Para provar que Ele é maior do que a morte, Cristo ressuscitou a menina, filha de uma autoridade e, depois, seu amigo Lázaro. Mas a morte é tão dolorosa, que Ele também chorou antes de chamar Lázaro que já estava sepulto havia alguns dias.

Depois, enquanto os apóstolos e Maria estavam recolhidos, ainda a chorar sua partida, Ele apareceu. Tomé quis tocar sua chaga e o fez. Sempre Tomé, aquele que é tão próximo de nós mesmos. Somos Tomés: desconfiados, inquietos, inseguros. Desde os primeiros tempos de vida pública, ele faz o nosso protótipo: "não sabemos para onde vais, como é que vamos saber o caminho?".

Seres de pouca fé, nós somos. Mas também de pouca esperança e de caridade insuficiente. Meditássemos sobre o mistério da ressurreição e de fato acreditássemos nela, não nos desesperaríamos diante da morte. Mas o material de que os humanos são fabricados é de péssima qualidade. Somos pó. A ele voltaremos.

Seria saudável pudéssemos nos servir desta Semana Santa do ano 2023 e que hoje se encerra, para reaprender o mínimo suficiente a uma vivência compatível com a nossa fé professada.

A receita existe e não é impossível de ser seguida: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Aqui é que está a dificuldade: nem sempre o próximo é amável ou amorável. Temos enorme resistência a enxergar como "próximo" ou como "semelhante", alguém com quem não simpatizamos. Ou que seja muito diferente de nós. Ou que seja excluído ou invisível, como tantos irmãos nossos.

O melhor que cada um de nós poderia fazer nesta Páscoa da Ressurreição seria o propósito modesto de procurar ser mais caridoso, tolerante, compassivo, compreensivo para com as misérias alheias. E ter a capacidade de encarar as próprias misérias. Seria um excelente começo para uma verdadeira Páscoa. Feliz festa da Ressurreição do Senhor para todos!

José Renato Nalini é diretor-geral de universidade, docente de pós-graduação e Secretário-Geral da Academia Paulista de Letras (jose-nalini@uol.com.br).

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