Mês Missionário: acolher também é evangelizar

06/11/2022 | Tempo de leitura: 3 min

"E quando te vimos estrangeiro, e te acolhemos?

Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (cf. Mt 25, 38.40).

A imprensa noticiou, a internet repercutiu e o caso chocou o mundo. Em janeiro de 2022 o jovem congolês Moise Kabagambe, de 24 anos, foi espancado até a morte por três homens na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ele cobrava o pagamento de duas diárias atrasadas por seu trabalho em um quiosque. Por que mataram Moise? De que recônditos do coração alguns seres humanos extraem tanto ódio?

Moise Kabagambe, um homem negro, saiu da República Democrática do Congo em 2011, aos 11 anos, junto com três irmãos, fugindo da guerra, da fome e de doenças. Em boa medida, seu assassinato no Brasil expõe a dificuldade humana em acolher o estrangeiro como irmão, em compreender suas dificuldades na busca da sobrevivência em terra estranha. Revela que um coração sem amor está sempre pronto a descarregar seu ódio sobre aquele que lhe parece diferente, seja na cor da pele, seja na língua, seja na classe social, seja na crença.

Em outubro, celebramos na Igreja, o Mês Missionário, com o intuito de renovar o nosso compromisso de anunciar o Evangelho a todas as gentes e em todos os cantos, compreendendo que o acolhimento dos refugiados está intrinsecamente associado com essa primordial tarefa cristã. Pois, "acolher bem também é evangelizar".

Não se admite que governantes construam muros para barrar fisicamente o ingresso de estrangeiros em seus países, independentemente das legislações migratórias, e que a burocracia sirva à crueldade de separar famílias. Igualmente, não se pode aceitar que milhões de pessoas feneçam em alto mar, a bordo de barcaças precárias e sem alimento, almejando a um mero atracadouro. Não se concebe que o Brasil, país em boa dose erguido por mãos imigrantes, exclua hoje os que vêm de fora e chegue ao extremo de lhes tirar a vida.

Ninguém deve ser excluído, ensina-nos o Evangelho e reforça-nos o Papa Francisco na sua Mensagem para o 108º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2022: "A construção do Reino de Deus está com eles, porque sem eles não seria o Reino que Deus quer. A inclusão das pessoas mais vulneráveis é uma condição necessária para a cidadania plena".

Francisco nos diz que a partilha de diferentes expressões de fé e devoção constitui oportunidade privilegiada para viver mais plenamente a catolicidade do Povo de Deus. Ao concluir sua Mensagem, o Papa rogou a Deus para que floresça a fraternidade onde houver exclusão e para que sejamos construtores do seu Reino junto com os habitantes das periferias.

Em clara consonância com tais palavras, o Papa Francisco celebrou, no dia 9 de outubro, a missa de canonização de João Batista Scalabrini, bispo de Piacenza que no final do Século XIX fundou as Congregações dos Missionários e das Missionárias de São Carlos com a missão específica de servir aos migrantes.

Que o Senhor continue despertando em toda a Igreja, o ardor missionário e o zelo pela evangelização.

Dom Arnaldo Carvalheiro Neto é bispo diocesano de Jundiaí (verboadm@dj.org.br)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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