MÃES PERDIDAS

Falta de leite especial na Farmácia de Alto Custo gera desespero

Por Leonardo de Oliveira | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Latas de leite vazias são sinal de angústia para mães
Latas de leite vazias são sinal de angústia para mães

A falta de fórmulas especiais para crianças com APLV (Alergia à Proteína do Leite de Vaca) na Farmácia de Alto Custo de Franca tem provocado desespero entre mães que dependem do fornecimento público para alimentar os filhos.

Segundo relatos recebidos pela reportagem, desde a última semana não há estoque do produto e tampouco previsão de reposição. Em contato com a unidade, a informação repassada é de que o abastecimento depende do envio por parte do governo, sem prazo definido.

A situação, no entanto, não é inédita. De acordo com as famílias, o fornecimento já havia sido interrompido em dezembro do ano passado - há cerca de quatro meses - e agora o problema volta a se repetir.

Um dos casos que evidenciam a gravidade do cenário é o do pequeno Bernardo, de 1 ano e 4 meses, que convive com a APLV desde os primeiros meses de vida. A mãe, Maria Carolina Moreira Taveira, relata que os sintomas começaram com vômitos frequentes, dificuldade para ganhar peso e outros sinais que chegaram a ser considerados normais em atendimentos iniciais na rede básica.

O diagnóstico só foi fechado após agravamento do quadro, quando a criança chegou a evacuar com sangue e foi encaminhada para atendimento especializado. Desde então, passou por mudanças na alimentação até chegar à fórmula adequada, que hoje é essencial para sua saúde.

Segundo a família, Bernardo é extremamente alérgico e qualquer contato com traços de proteína do leite pode desencadear reações imediatas, como vômitos, diarreia, irritações na pele e prostração. “Ele fica muito mal, não consegue nem brincar. Precisa ficar no colo o tempo todo”, relata a mãe.

Além da rotina rigorosa com alimentação e produtos, já que a proteína pode estar presente até em itens de higiene e medicamentos, o quadro de saúde exige atenção constante. Recentemente, o bebê ficou internado por 15 dias após episódios recorrentes de otite, que, segundo médicos, podem estar relacionados à fragilidade do sistema imunológico.

Durante a internação, a criança apresentou um novo quadro alérgico dentro do hospital, com sintomas intensos, incluindo febre, lesões na pele, inchaço nos olhos e alteração intestinal com presença de sangue. “Foi um desespero. Ele piorava a cada dia e não conseguíamos identificar a causa”, afirma.

'É um desespero todo mês'

Diante desse contexto, a falta da fórmula representa risco direto à saúde. A última retirada do leite deveria ter ocorrido na semana passada, mas, ao comparecer à Farmácia de Alto Custo, a mãe foi informada de que não havia estoque.

Sem condições financeiras de arcar com o custo do produto - que varia entre R$ 240 e R$ 310 por lata de 400 gramas, com duração média de dois a três dias -, a alternativa tem sido recorrer à solidariedade de outras famílias.

“Meu filho tinha só uma mamadeira. Se não fossem outras mães, ele ficaria sem. Hoje tenho só mais duas latas, que devem durar até domingo. Depois disso, não sei o que fazer”, desabafa.

Outro ponto criticado pelas famílias é a quantidade fornecida pelo sistema público. Segundo os relatos, mesmo com prescrição médica indicando maior consumo, a entrega segue um padrão baseado na idade da criança, desconsiderando necessidades individuais.

A realidade, segundo as mães, é de constante insegurança. Muitas recorrem a grupos de apoio para conseguir doações e evitar que os filhos fiquem sem alimentação. “É um desespero todo mês. E agora, sem estoque, a situação ficou ainda pior”, relatam.

Para as famílias, o fornecimento do leite especial não é um benefício opcional, mas uma necessidade vital. “Não estamos pedindo nada além do básico. É alimento, é saúde. Não pode faltar”, afirma a mãe.

O que diz a Secretaria de Saúde do estado? 

A CAF (Coordenadoria de Assistência Farmacêutica) do Estado de São Paulo informou, em nota, que a fórmula infantil mencionada pela reportagem já está em processo de distribuição e deve ser entregue na FME (Farmácia de Medicamentos Especializados) de Franca até o final desta semana.

Segundo o órgão, os responsáveis pelo paciente citado serão comunicados assim que o produto estiver disponível para retirada. A CAF também destacou que o fornecimento segue critérios técnicos estabelecidos pelo Estado.

De acordo com a nota, o quantitativo disponibilizado para crianças de até 2 anos é definido conforme as diretrizes, que regulamentam a dispensação de fórmulas infantis no âmbito da assistência farmacêutica estadual.

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