
A partir de maio, novas regras para a saúde mental no trabalho entram em vigor. A Norma Regulamentadora 1 (NR1) prevê que as empresas devem identificar riscos à saúde mental dos funcionários, criar planos de ação e oferecer treinamentos e suporte psicológico. Medidas como criação de ambulatórios de saúde mental, registros contínuos das condições de trabalho e capacitação de líderes serão exigidas para minimizar os impactos dos transtornos psiquiátricos no ambiente corporativo.
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O número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais atingiu um novo recorde em 2024, com quase meio milhão de auxílios concedidos pelo INSS. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, houve um aumento de 67% em relação a 2023, com destaque para os transtornos de ansiedade, que lideram os pedidos pelo quarto ano consecutivo.
O levantamento aponta que os benefícios concedidos por ansiedade cresceram 76% no último ano, enquanto os casos de depressão subiram 69%. O psiquiatra Rodrigo Gasparini, diretor técnico da clínica Francisca Júlia, explica que o crescimento reflete um fenômeno global.
“As questões de saúde mental têm apresentado maior prevalência nos últimos dez anos, especialmente no mundo ocidental. Após o primeiro ano da pandemia, estima-se um aumento de 25% nesses casos. Um relatório da OMS de 2022 já previa que um bilhão de pessoas no mundo seriam afetadas por transtornos mentais, ou seja, uma a cada oito pessoas”, afirma Gasparini.
Principais transtornos que afastam trabalhadores
Entre os transtornos que mais geraram afastamentos em 2024, os líderes foram os transtornos ansiosos (141.414 concessões), episódios depressivos (113.604) e transtorno depressivo recorrente (52.627). Também aparecem na lista transtornos relacionados ao uso de álcool e drogas, transtorno bipolar e esquizofrenia.
O psiquiatra destaca que o impacto dos transtornos mentais na capacidade laboral é profundo. “Essas doenças afetam diretamente a funcionalidade do indivíduo, tornando-o incapaz de desempenhar suas atividades profissionais. O ambiente de trabalho pode ser um fator agravante, especialmente para pessoas com predisposição a essas condições.”
Gasparini ressalta ainda que a falta de tratamento adequado pode ter consequências graves. “Os riscos de não se tratar transtornos mentais são semelhantes aos de qualquer doença física grave, podendo evoluir para quadros mais complicados e, em casos extremos, até para o suicídio”, alerta.
Pressão no trabalho e saúde mental
Mudanças nas relações de trabalho, como o avanço do home office e o aumento da pressão por produtividade, estão entre os fatores apontados por especialistas para o crescimento dos afastamentos. Além disso, casos de cobranças excessivas, assédio moral e metas inalcançáveis podem servir como gatilhos para doenças psiquiátricas.
“O trabalho, por si só, já representa algum nível de estresse, pois envolve hierarquia, metas e produtividade. Para a maioria das pessoas, isso é administrável, mas para quem tem ansiedade ou depressão, pode se tornar um fator estressor intenso”, explica Gasparini. “Em casos mais graves, ambientes de trabalho abusivos, com cobranças desproporcionais, podem agravar ainda mais o quadro.”
O psiquiatra também reforça a importância de buscar ajuda profissional diante de um ambiente de trabalho tóxico. “Se a relação profissional está causando sofrimento intenso e impacto na saúde, é fundamental procurar suporte psicológico e, se necessário, avaliar a possibilidade de mudança de emprego”, aconselha.
Impactos econômicos e preocupação das empresas
O aumento dos afastamentos não impacta apenas os trabalhadores, mas também as empresas e o setor público. O psiquiatra alerta que a queda na produtividade gerada por transtornos mentais causa perdas significativas. “Com absenteísmo e presenteísmo, estima-se uma perda global de um trilhão de dólares por ano”, diz Gasparini.
As novas diretrizes da NR1 buscam reduzir essas perdas. “A ideia é que o ambiente de trabalho deixe de ser um gatilho para esses transtornos e passe a ser um espaço que contribua para a melhora da saúde mental dos trabalhadores”, conclui Gasparini.
Psiquiatra Rodrigo Gasparini, diretor técnico da
Francisca Júlia - Bem-estar Mental
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