Choque de cultura


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Entendo que a expressão Choque de Cultura se explica por uma grave e conflituosa oposição a opiniões ou atitudes contrárias a costumes arraigados. Algo que, a princípio, a gente não concorda ou não entende de jeito nenhum. Recentemente, passei por alguns, estando as mulheres no epicentro do meu estranhamento.

Em Roma, no meu hotel, depois do banho, coloquei lá minha roupa de passeio e saí à caça de um espelho para as conferências de praxe. O rosto, ok!: lá estava o espelhinho no banheiro. Mas espelho para corpo inteiro, não havia. No restaurante, onde jantamos, tampouco. Um pequeno espelho sobre a pia me permitia, se quisesse, retocar a maquiagem ou retirar os verdinhos do dente. A coisa prosseguiu assim, e eu comecei a reparar e me envergonhei ao ver nas italianas, e europeias em geral, o desinteresse pelos seus reflexos em qualquer superfície refletiva. Não vi nenhuma mulher fazendo aquela checagem do traseiro que nós brasileiras fazemos o todo tempo. Não minto: eu me senti mais feliz.

No vilarejo de Pedrinhas, no município de Icó, no Ceará, conheci duas mulheres adoráveis, minhas primas. Têm quase minha idade, mas são mais novas uns aninhos. Duas criaturas cujos cotos das asas só não furaram as escápulas porque devem ser aparados regularmente. Levantam-se antes do primeiro homem e são elas que apagam as luzes da casa, depois que todos já se deitaram. Trabalham em absoluto silêncio e alegria, parece que nunca escutaram a palavra amargura. São solteiras, não sei se opção ou por alguma invisível imposição para cuidarem dos outros. Elas fazem todas as refeições e comem frio. Somente depois que todos comeram, inclusive as crianças, as duas pegam os pratinhos mais feios, o talher mais torto e com uma banda da bunda apoiada no banco a outra para fora, que é para não se demorarem sentadas, elas comem os restos.

Em Juazeiro do Norte, passamos o Natal. Quando entrei no banheiro do restaurante, quase cantei Conceição, de Cauby Peixoto. Pensei estar num camarim: luzes, espelhos enormes e uma fila de mulheres ricas com bundas imensas se acotovelando para a selfie ma-ra-vi-lho-sa. Ouvi comentários sobre como a iluminação daquele banheiro era perfeita para uma foto “falsa”.

De volta a Franca, fui tomar meu café no shopping e duas senhoras bem idosas conversavam animadamente ao meu lado. Pareciam bem, donas do próprio dinheiro e destino, assim me pareceu, exibindo lindos cabelos brancos e bocas que não desabrochavam como flores de plástico.

Puxei minha cadeira para perto delas e pensei aliviada: é bom voltar para casa.

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