Para Maria Madalena
Ele sobe as escadas e, por detrás da porta telada, eu vejo seu semblante calmo a me pedir para irmos embora. Respondo que estamos lotados e que, apesar do adiantado da hora, somente duas mesas pediram...terei que ficar. Ele dá meia volta contrariado. Meia hora depois ele volta, dessa vez percebo passos decididos, está com a bolsa a tiracolo, o restante da cerveja na mão denunciando mais vontades e esclarecimentos: “eu não estou a trabalho”. Dessa vez, ele nada pergunta, calmamente se encosta em um canto onde não nos atrapalha, mas tudo vê.
Ele está mais perto da água que do fogo. O lume é o último estágio da cozinha, formado por um quarteto quase indescritível: fogão, broiler, fritadeira e salamandra. Do lado de fora da cozinha os ventos podem ser fortes, mas aspergem água: da pia, onde uma lavagem para retirada do “grosso” é feita pelas mãos de uma senhora que me acompanha faz 23 anos, passou de uma casa a outra, depois outra, serviu a um marido, depois a outro e é quem manda e provem generosamente o sustento do seu lar.
Ele está ao lado da máquina de lavagem que, refinadamente, docemente, faz a lavagem final devolvendo louças brilhantes e mornas.
Hoje, a canícula está sendo comandada por outra mulher, uma querida nossa, que dia a dia vemos arrefecer: o sobrepeso que nós tanto combatemos está a lhe gritar cama e Tandrilax de 8/8. Peleja com doença fatal, tem na reclamação um esporte, mas as coisas sérias lhe são leves, ou pela própria insuportabilidade, são largadas ao lado.
Ele espera, pacificamente, como se ali fosse um bom lugar para ficar. Vejo-o alisar o bigode, trocar o pé de apoio, ignorar um banco que ao lado dele parece também esperar alguém. Eu monto 1,2,3 raviólis bananas, depois bacalhaus aos montes, tem duas sobremesas no “prego” chamando por mim a derreter a paciência de quem as espera. A chef, inventora do fogo por aquelas paragens, manobra frigideiras, ri, faz regime e sofre por não alcançarmos nunca o que queríamos.
Somos quatro cariátides a cuspir fogo e carregar pedras, e o David de Bernini mira o horizonte no instante antes da ação... mas não. Ele resta de forma a poder se eternizar na intenção. Parece uma “lagoa morta”, um açude, uma cacimba. Meus gestos também são plácidos, aprendi a manter a calma quando o chão treme na cozinha. Mas ele não conhece esse tremor, ele está a salvo. A erupção que causamos na cozinha é barrada pelas nossas paredes.
No continente, pode chegar uma leve marola de espumas brancas que atingirá os pés dele, mas só os pés de estátua dele.
Um ótimo Natal a todos.
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