Situações particulares de solo e clima têm normalmente a capacidade de gerar riquezas, porque extraordinários os frutos. Muitas vezes, inesperados, mal consegue-se compreender, mas estão lá, convivendo desafiadoramente. Por exemplo, eu não imaginava que o entorno do vulcão Etna fosse povoado por joaninhas. Centenas de pontinhos vermelhos tingem as hastes douradas de um capim que lembra o trigo. O motivo de tal evento desafia até mesmo pesquisadores experientes, assim nos disse nossa simpática guia italiana, que ama o Brasil.
Por ali tem-se um micro ecossistema com clima que difere totalmente daquele que a poucos metros abaixo reina numa Sicília quase sempre muito quente. A deposição milenar das rochas magmáticas provenientes do centro da terra é o sustentáculo de algumas plantas que só existem lá – a Ginesta, por exemplo, um arbusto cujas folhas são agulhas gordinhas, nem tão secas como as dos pinheiros, mas incapazes de se transformarem em folhagem.
E, para além do cogumelo de fumaça e das explosões que fazem a alegria dos turistas, o entorno do Etna é local de degustação gastronômica. O mel das abelhas que exploram a florada única daquele ecossistema é um destaque. E a engenhosidade humana soube fazer maravilhas com ele. Desenvolveram uma pasta que leva geleia de frutas da região, o limão, por exemplo, junto com o mel - e o resultado é uma sobremesa que se pode comer de colher ou um creme que fica delicioso numa torrada morna. O morango e o limão são meus preferidos. A riqueza de sabores dos meles se vê com os olhos, não é preciso provar, porque fazem uma belíssima paleta de cores que vai do marrom ao translúcido, revelando acidez e açúcar variados.
Mas, como o próprio nome sugere, o ouro do Etna é o pistache. Com preço aurífico, nossa guia se assombra com os 40 euros o quilo, são deliciosos. A pasta de pesto desses pistaches foi uma das coisas mais gostosas que comemos. Passamos todos os finais de tarde procurando um pão qualquer para não deixar sobrar filete de azeite no vidro da pasta que compramos. In natura, eles são enormes e com sabor bem acentuado. Algumas cidades ao pé do vulcão oferecem verdadeiras degustações pistacheiras – quente, frio, duro ou mole.
Fomos primeiro ao ponto mais próximo da cratera, passeio que se faz a pé. Depois conhecemos a casa mais próxima dela. Seu morador tem apelido de Russo, não sei se desde sempre ou só depois do evento que ficou famoso em toda a Europa, na última indigestão do vulcão. O arroto-choco do Etna fez o poder público mandar evacuar todas as cidades próximas. Por óbvio, a casa do tal Russo seria a primeira a ser evacuada, mas ele resistiu. O rio de lavas podendo ser avistado e ele firme, o calor sufocante e ele orando. Muito bem, a lava esticou a língua, mas não lambeu um centímetro da residência dele. Invadiu o quintal, vê-se nítido, uma parte de terra, outra de pedras vulcânicas.
E o mais bonito: como ninguém pisa, toda a negra pedra vai se escondendo por debaixo de microrganismos branquinhos que são, afinal, as primeiras formas de vida na terra – comoveu-me, ver do outro lado da cerca, o meu eu, no passado mais remoto.
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