Fui devolver o ótimo Infiltrado na Klan, do Spike Lee, na Gramophone e, toda animada, aconselho a Regina, proprietária da locadora, a fazer um buraco na parede para que a gente pudesse entregar os DVDs a qualquer hora do dia ou da noite. É quando sou informada, por ela, em lágrimas, que está para fechar. Chorei também, não me contive, embora me parecesse ridículo. Mas eu sou uma das primeiras clientes daquela locadora, se não me engano minha ficha é número 13 ou 23. Preenchi meu cadastro em ficha de fichário quando a locadora ficava numa casa e era da família De Russi e eu, criança. Lembro-me que comprei um videocassete com meu salário, o primeiro bem durável que pude comprar com minha força de trabalho, e o fiz à guisa de investimento e diversão. Pensando assim, eu enxergo motivos para chorar...
Fui apaixonada por filmes e, rebobinando o passado, percebo o quanto da minha formação feminina esteve ligada aos filmes que escolhi assistir. Inclusive naqueles, cuja comida deu o tom para o: gravando! São tantos bons títulos para indicar, mas nenhum deles estão por aí, disponíveis nas plataformas digitais comuns. Imagino que brasileiros gostem muito de filmes que tratem de comida, porque só em português a palavra comer tem dupla satisfação - assim me disse um diretor de cinema brasileiro. E ainda, não podemos nos esquecer nem ignorar o fato de que nossos ancestrais indígenas praticaram o canibalismo ritualístico e tinham suas culturas fortemente arraigadas a essa prática. Talvez por isso, a boa safra do tema no cinema nacional: Estômago é excelente, O Banquete, muito bom.
Mas me lembro bem dos títulos que aluguei na Gramophone que tratam do tema: A festa de Babette, Vatel, Chocolate, Ratatouille, Como água para chocolate, Tomates verdes fritos, A excêntrica família de Antônia, Simplesmente Marta, O tempero da vida, Volver, O filho da noiva, Julie e Julia, A última ceia, O veneno está na mesa...
Foram tantos! E eu nem tinha um restaurante! Em alguns filmes, a comida é só um petisco, em outros é todo o negócio.
Seja como for, não quero me esquecer dos filmes que listei aqui, porque em algum tempo da minha vida, quando o apetite começar a faltar, talvez seja uma boa ideia voltar a eles, pois são cheios de tutano.
Sei que a Gramophone não estará mais lá, admiro o empenho da Regina. Espero poder encontrar esses filmes numa boa plataforma, não pirata, mas que não me cobre os olhos da cara. Indigna-me a Internet ter feito arroz com feijão de um monte de coisas, mas ser ainda ingrata com a arte que presta. Não farei chuva de arroz para locar filmes, embora eu goste de ir até lá, embora eu (deve ser pura implicância) escolha mais rápido um filme na Gramofone do que no Netflix, somado o tempo do deslocamento, mas aceito quando a coisa acaba e também sei ser grata.
Vocês foram bons do começo ao fim.
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