Com a palavra: o mestre


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Muito bem, vamos a ele: o mestre Michelangelo. É normal que a gente termine uma biografia de peso apaixonado pelo biografado, porque o biógrafo justifica os erros humanos ao dar texto às motivações e exalta os feitos como obra da excepcionalidade. No caso particular, nem uma coisa nem outra: Martin Gayford, (autor de: Michelangelo, uma vida épica) talvez por ter a hercúlea tarefa de retratar “o gênio” da escultura e pintura, tenha mantido os pés no freio e não se entusiasmou. O momento histórico de Michelangelo foi absurdo tanto nas artes como na fé e nos costumes, o homem engatinhava para o individualismo.

É gostoso ver a relação alimentar que, mesmo para o homem rico que ele se tornou, era tão diferente da nossa. Não havia ainda a segurança da barriga cheia que nós conhecemos. Michelangelo era toscano e, como tal, jamais abandonou o gosto pela sua comida. Na época, a Itália não existia como um país unido, e as regiões se firmavam tal como países distintos. Seu queijo preferido era o Marzolino, prestigioso queijo de cabra, cujo modo de criação, desses animais, data dos Etruscos. Durante o Renascimento, ombreava com o parmesão e tinha idêntico reconhecimento. Mas com uma curiosidade, o nome Marzolino refere-se à estação do ano em que ele era produzido, fruto primaveril, era em março que acontecia a produção. Claro, hoje, restam o nome e o romantismo, porque a produção acontece no inteiro arco do ano. E o coalho, usado na antiga receita, era retirado da flor de uma alcachofra selvagem. Hoje, do vitelo.

Outra paixão foram os raviólis. Antes é mister que se diga, os industrializados são um desastre, enquanto os caseiros podem ser encantadores. Recheados com presunto cru, linguiças, queijos, acelga e espinafre refogados, toda a família das abóboras. Enfim, o resultado deverá ser delicado. Através da preferência de Michelangelo por eles, nós tomamos conhecimento que esse prato existe há mais de 500 anos! E ainda a considerar o fato que seu sobrinho Lionardo lhe enviava, de Florença para Roma, peras frescas, podemos pensar que essa era sua fruta preferida.

Não cairei na tentação de definir a personalidade do artista, mas uma carta de agradecimento ao sobrinho, por ter lhe enviado ótimo vinho, contém uma mostra da docilidade e rudeza:

“Recebi a carga de trebbiano que me mandaste, isto é, quarenta e quatro garrafas. São magníficas, porém demasiadas, pois não tenho mais, como antes, a quem dá-las. Por isso, se eu estiver vivo no ano que vem, não quero que me envies mais”.

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