Nem sou velha e presenciei uma mudança incrível na nossa relação com a comida. Se quando eu era criança comida nutria, vinha da mãe e estava relegada ao lar, hoje ela está mais fora do que dentro, as mães não são mais as autoridades no assunto e, a nutrição, é uma consequência do prazer. Parece que essas mudanças se imprimiram nas duas últimas décadas - e parecem já estar mudando de novo. Fala-se muito no prazer, mas a questão nutricional está a morder os calcanhares de chefs que sonham com o prato perfeito. Os restaurantes abundam, há quilos e toneladas de comidas sendo servidas mundo a fora, mas parece que receber em casa está na moda novamente. Ou seja, tudo está na moda.
Mas um detalhe me chamou atenção: o valor da comida está em alta. Comentei com minha irmã que, ao invés do presente tradicional de aniversário infantil, eu desejava dar um passeio de presente para minha sobrinha - me achando com isso, muito original...Na mesma semana fiz uma reserva no Azul de uma cliente para outro cliente, o motivo? Um jantar de presente. Na mesma semana meu professor de ginástica foi almoçar no Azul e me disse: “vim desfrutar meu presente de Páscoa, emendando, amanhã tem mais presente”. Fiquei feliz, claro, mas me sentindo plagiada. Por aí a fora, acho que fiquei sabendo de todo mundo que recebeu como presente, comida.
Acho encantador porque não gera lixo, porque é econômico, biodegradável e cheio de amor. Vou logo avisando: não é mais original presentear-se com pão, bolo, jantar, pois assim como os chocolates, vão se enfeitando de fitas também.
O interessante dessa história é ver a comida se transformar em presente num tempo em que a raridade não é exatamente um adjetivo delas. Acabo de ler a biografia do pintor e escultor italiano Michelangelo. Nos idos dos anos 1500 era normal, até desejável, que as comidas e bebidas fossem objeto de presentes. Em alguns casos Michelangelo recebeu como moeda de pagamento, por obra sua, garrafas de vinho e queijos. Aliás, reconhecido sovina, quem desejava obter de Michelangelo alguma obra poderia cevá-lo antes com bons vinhos e queijos e correr o risco de ver tudo devolvido, pois na mesma medida em que adorava comer e beber bem, odiava dever favores. Mas voltarei nele.
Espero realmente que esse “novo” comportamento esteja refletindo uma nova consciência: querer tanto bem alguém, querer agradar, mas não querer abarrotar ainda mais guarda-roupas, sapateiras e prateleiras com objetos que não precisamos e não usaremos.
Que a moda pegue, que a gente use e abuse, sem enjoar.
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