carapaças


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Antes de o sol se pôr, nós deveríamos chegar ao nosso destino, porque não queríamos perder para a sombra nenhuma beleza natural da ilha. Por volta das cinco da tarde, de dentro de um Fiat 147, avistamos o mar tão azul quanto se pode crer, a areia branca e três jovens pelados saindo do mar e deitando-se na areia deserta. Eu quis perguntar ao meu marido se aquilo era real, mas ele viajava...Preferi, então, invocar mentalmente o rol de fantasias que não são mais comuns a um casal amadurecido. Aqueles jovens pareciam santos. Adiante, depois de uma curva fechada, a estrada solitária se abria e à luz do sol poente uma mancha brilhante alaranjada marchava de lado pela estrada. Reduzimos a velocidade e, mais uma vez incrédulos, vimos centenas de caranguejos atravessando a via que, inopinadamente, dividira ao meio o mangue. Para a sorte deles, ninguém vindo ou indo, porque era impossível passar sem deixar pregado no asfalto algum crustáceo.

Ao chegar em Maria La Gorda fomos avisados que o jantar seria servido às 19h e que uma espécie de moqueca de siri seria servida – um siri mole. É justificável que a gente pense que a moleza que qualifica esse crustáceo venha do tipo de preparação que se faz com ele. Por exemplo, a carne de siri refogada e afogada em meio a uma profusão de temperos e perfumes, textura de ensopado que a gente enche casquinhas. Mas não é nada disso: duro ou mole é a condição do corpo do siri. Normalmente, ele é duro a dar marteladas, a carapaça é difícil de quebrar, e retirar a carne aos fiapos é tarefa para povos ribeirinhos acostumados a esse trabalho.

Mas existe a ecdise, que é a troca de carapaça do siri. Ele faz isso para que possa se desenvolver mais, condenado que está a permanecer preso nos diâmetros do velho exoesqueleto. Quando isso acontece, ele está superalimentado, pois faz reserva alimentar para o processo. Durante algumas horas, permanece nu, coberto por uma diáfana pele e fica mole. Esse é o verdadeiro siri mole. Uma iguaria que chega a custar como lagosta. Acredito que não comi ensopado de siri mole porque seria um desperdício usar a carne doce e suave para ser neutralizada num tropel de temperos. Imagino que o siri mole deva ser tratado exatamente como uma lagosta.

Parte de mim gostaria de deixar uma receita de siri mole, parte de mim não para de dizer: que covardia.

É dificílimo descobrir quando a carapaça do animal vai cair. Em cativeiro existem os olheiros que identificam o comportamento do bicho. Uma grande empresa do ramo desenvolveu um programa que os monitora - e aí não tem erro.

Ou quem sabe, haja erro demais.
 

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