Merenda escolar


| Tempo de leitura: 2 min

Lembro-me bem delas, exatamente, porque não gostava das merendas das escolas onde estudei. Fomos filhos da soja e só perdi o nojo desse grão quando, muitos anos mais tarde, eu própria pude olhá-lo de outro ângulo e refletir: afinal, o que posso fazer com você? Recordo-me do leite de morango, só que de soja, também do de baunilha, só que de soja, mingau de aveia, de soja, achocolatado, de soja...Quando entrávamos no refeitório éramos contaminados pelo pó do aroma doce que aquelas misturas deixavam no ar. Nas prateleiras de madeira, pilhas de saco rosa, brancos e marrons aguardavam para serem os próximos leitinhos da merenda, que eram servidos em canecas plásticas, vermelhas ou azuis com o logotipo do estado de São Paulo.

Mas o pior das merendas era a macarronada de macarrão parafuso com molho vermelho e carne de soja. O cheiro era por si só repelente do apetite. Mas se a fome insistia, a gente tentava mais uma vez, quem sabe hoje...Mas não, nunca foi boa. A proteína de soja unia-se em grumos pegajosos que se alojavam nas reentrâncias do parafuso - digo, do macarrão - e quando a gente mordia, uma esponja salgada e química explodia na boca da gente. A ânsia para que aquela comida fizesse o caminho inverso era tanta que várias vezes me fizeram sair correndo do refeitório.

Cresci, minhas irmãs tomaram meu lugar nas escolas públicas da cidade e me sentia feliz ouví-las contar sobre as deliciosas merendas que comiam, coisas assim: arroz, carne, verdura, sopa de verdade, aliás, era só disso que se tratava: verdade! Em alguns casos, hortas abasteciam de frescor os refeitórios de crianças pobres.

Por isso, e por tudo o mais em que acredito, fiquei muito triste de saber que João Dória, depois de ver fracassar a farinata, parece que emplacará novamente os leitinhos doces, cheios de conservantes e aditivos químicos. É inexplicável, politicamente, que o governador tenha retirado o elogiadíssimo projeto de Janaina Rueda das escolas públicas de São Paulo para retornar à pobre e previsível merenda industrializada. A justificativa de troca de equipe não sustenta a “fome” das crianças. O projeto deveria seguir mesmo com as acomodações “necessárias”. Janaina treinou merendeiras, fez um rodízio de matérias primas, para não enriquecer um só tipo de fornecedor, e balanceou as refeições dando total preferência para o que é bom, saudável, barato e culturalmente relevante. Detalhe número um: sem cobrar nada. Detalhe número dois: os menus de Janaína contemplavam a comida típica paulista.

Fosse o governador Dória um homem gordo, descuidado de sua alimentação e corpo, eu poderia entender. Mas, sabe-se, ele é preocupado com sua nutrição, pratos de frutas e castanhas estão entre suas preferências. Aos 61 anos de idade, João Dória mantém-se esguio (dizem que mesmo sem roupa ele está ótimo). Tenho certeza que ele sabe muito bem os estragos causados pelo excesso de glúten, açúcares e aditivos químicos. Então, só nos resta lembrar: merenda escolar é comida para pobre.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários