É admirável o mundo que os grandes artistas são capazes de criar. Nem bem falamos o nome deles e a sensação já se apodera da gente. Se dissemos Salvador Dalí, mergulhamos na exuberância sensorial. Dalí tem cheiro de Angel, Lou Lou, com toque de Chanel nº 5. A cor será sempre primária, a temperatura desértica a ponto de derreter relógios, o toque luxuriante, blue velvet, paredes sem látex, cobertas de tapeçaria, chão de areia, quimono de seda e sonhos.
Faltava o gosto.
Não chegou até nós os excêntricos jantares patrocinados pela dupla Dalí e Gala (a indefinível esposa do artista). Ele queria transformar sua arte em algo digerível e, para isso, proporcionava experiências comestíveis aos seus convidados. Muitos pratos elaborados com frutos do mar - o ingrediente preferido do artista, não se sabe se pelo sabor ou pelos desenhos magníficos que esses bichos são. Um polvo, uma lagosta, são de uma beleza assustadora, além de familiares. O pintor viveu numa pequena cidade catalã de pescadores: Cadaqués.
Em 1973, Dalí lançou um livro que se propunha a divulgar as supostas receitas dos jantares de Gala. O título do livro era: Os jantares de Gala. Um livro luxuoso, que mais se assemelhava a uma obra de arte pictórica, esgotou-se, virou definitivamente uma obra de arte e era caçada nos sebos. Agora a editora Taschen, famosa por seus livros incríveis, o está relançando. Mas...é pra ver, não é pra comer: o livro tem lugar na sala, não na cozinha.
Salvador Dalí é do nosso tempo, viveu sob a pressão de projetar uma imagem e o fez como poucos artistas conseguiram. Imprimiu diversas marcas, dentre elas, o bigode, que deixou crescer desmesuradamente logo que conheceu Gala. Dalí era de uma timidez absurda, foi a mulher que o apoiou a sair da casca e se movimentar, ele se escondeu por trás das esquisitices.
Mas o reclame da vida do casal pode não refletir a verdade, antes, o oposto. A sala de jantar, que eles chamavam de refeitório da casa, ostentava uma mesa retangular de carvalho, dois castiçais de ferro, um banco de madeira, onde os dois se sentavam lado a lado. Eram assim as refeições do casal se estivesse frio ou ventando demais do lado de fora, simplicidade monacal.
Paquita foi a cozinheira do casal durante muitos anos. Especializou-se no prato preferido de Dalí: lagosta ao chocolate. Visitantes seletos eram recebidos para aperitivos e depois jantavam a tal lagosta, mas numa área reservada às mundanidades.
Lá dentro, no refeitório, ninguém entrava, bem como nenhum era chamado a dormir na casa - a solidão dos Dalí era sagrada.
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