Os artificiosos e vistosos buquês que espocarão nos céus, espocarão por nós também. O tempo é o mestre de cerimônia, passado e presente são confrontados, o velho tende a ser enxotado e enterrado, o novo, um recém-nascido, terno e adorado como um Jesus. Repetimos o ritual e, incrível, mantemos a esperança de sermos outro, melhores, porque em sã consciência ninguém alça a vista para pedir uma vida viperina. A danação é que cumprir o avençado, se vê é com a batalha - e é aí que a gente se perde.
Ouvi, dia desses no rádio, um programa relatando os pedidos para 2019, divididos entre as intenções dos homens e das mulheres. Diferiam em tudo, exceto na vontade de viajar mais. Homens e mulheres desejam ter tempo e dinheiro para viajarem mais no ano que se inicia. Quanto ao resto, os homens querem ter aumento de salário e sofrer menos estresse, já as mulheres pretendem iniciar uma atividade física, fazer regime e emagrecer. Visto assim, as mulheres me pareceram mais coerentes, porque as três coisas estão relacionadas - e ter aumento de salário com redução de estresse parece-me mais obra da imaginação.
Mas porque o regime encabeça a lista de desejos? Por que é tão difícil fazer um regime que nos emagreça, não nos enlouqueça e ainda por cima seja duradouro? Parece-me que a resposta mais fácil para essa questão é admitir: porque é difícil mesmo! Talvez uma das coisas mais difíceis de se conseguir hoje em dia por conta da absurda oferta de comida. E o curioso dessa história é que quando a pessoa consegue, tende a dizer que não foi tão terrível.
O complicado, me parece, é esse olho no olho com nós mesmos. Se encarar e nem vestir o novo disfarce que combinará bem com o ano novo e ser sincero...Deixar para a história frases do tipo: “eu não como e engordo”, “eu nem janto mais”, “eu peguei só um pedacinho e já engordei” e o pior de todos, “estou de dieta” sem nunca ter feito um regime de verdade. Talvez um voto de silêncio caísse bem a quem se consola na vacuidade das próprias falas. Pode ser também que não seja a hora, não haja condição de começar algo que requer corpo e mente sãos. Nesses casos, que tal começar em março, julho ou a qualquer bom momento. Um regime se começa com algum planejamento e talvez começos de anos e festas não sejam, afinal, os melhores momentos.
Tenho um querido amigo que não gosta de Réveillon, mas ama os Natais. E isso me parece estranho porque a carga dramática do Natal pode comprometer a festa, mas quanto a pular ondas, comer lentilhas, uvas, vestir-se de branco, tomar espumantes e emocionar-se com os fogos de artificio são antídotos poderosos contra a tristeza.
Talvez os fracassos repetidos possam dar alguma pista.
Meu marido não faz nenhum plano de Ano Novo. Incrédula, insisto saber quais são as suas mínimas proposições e ele me repete há 12 anos que é: nenhuma. E ele? Adora os Réveillons.
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