Um dos nossos principais parceiros de negócios no Azul, há quase dez anos é a Bom Peixe. Digo isso não só pela correção com que nos são entregues as mercadorias, incluídos aí qualidade e pontualidade, mas principalmente pelos funcionários – entusiastas da empresa: não há melhor cartão de visitas. Acácio é quem nos entrega os produtos toda terça-feira. O grito dele ressoa do lado de fora do portão também azul: “Bom Peixe!”. E a gente abre o portão, confere a mercadoria, impecável, lhe oferece café, pão de queijo, etc. Nosso café é sem açúcar, no dele, adicionamos açúcar e ele como todo cearense arretado me explica: “Tu num sabe Adriana, café passado com açúcar é muito melhor que o adoçado depois...”. E eu rio muito porque sou filha de cearense: meu pai diria o mesmo! E com a mesma positividade desprovida de arrogância, mas não menos cônscio da sabedoria que se julgam portadores.
Quando há tempo, ele me fala das belezas de sua terra, as mesmas de meu pai. E agora inculcou que eu preciso experimentar Cajuína. Nunca bebi e pouco sabia dela. Fui procurar saber e Raquel de Queiroz me explicou tudinho. A Cajuína tem uma história interessante, deve sua existência a um homem, Rodolpho Teófilo, que, pode-se dizer, era um alquimista, mas farmacêutico de profissão e inventou uma bebida elegante, bastante apreciada, feita de caju.
A receita pede cajus muito doces. O refresco é o puro suco do caju. Há cajueiros ácidos e outros notadamente doces. Os azedos são perfeitos para dar o ponto aos doces de caju, mas não servem à produção da Cajuína. É preciso rasgar, moer e prensar os frutos para se obter todo o seu suco. A feitura é simples, mas exige-se extremo cuidado. Trata-se de subtrair a pureza da matéria prima. À época da invenção, misturava-se ao suco de caju uma porção pequena de cola derretida para que fizesse precipitar as impurezas e, na superfície, restasse o líquido clarificado - o mocororó. Líquido que seria ainda filtrado por panos imaculados tendo-se, ao final, algo diáfano como um cristal âmbar. No feitio caseiro, depois de engarrafar em vasilhames impecavelmente limpos, deve-se ferver as garrafas fechadas em banho-maria durante horas. Depois, durariam por anos.
Como se vê, a Cajuína é o suco do caju com açúcar concentrado que, pela assepsia, elimina os microrganismos capazes de azedá-lo. Ao que parece, até hoje o procedimento é semelhante. Utiliza-se um agente precipitador e a caramelização do açúcar da fruta se dá em banho-maria.
Quando tempo houver vou contar essa história ao Acácio, quem sabe deixá-lo mudo de espanto. Se não com isso, quem sabe com Gil:
“Tampouco turva-se a lágrima nordestina,
Apenas a matéria viva era tão fina
E éramos olharmo-nos na intacta retina da cajuína cristalina em Teresina”.
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