História deliciosa


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Ao final, digam-me se essa é, ou não, uma história deliciosa.
 
Em 1924, fundou-se a Empresa Nacional de Publicidade, a primeira desse ramo em Portugal. E, sendo Fernando Pessoa amigo do proprietário, fez-se natural a sua contratação para elaborar as campanhas publicitárias da agência. Olhem só, o proprietário dizia que ele, Pessoa, “descobria rapidamente o melhor sentido das coisas e improvisava sobre qualquer coisa, quer se tratasse de automóveis, de frigoríficos, de artigos de moda”.  Um dos primeiros produtos lançados sob os talentos do poeta foi o corn flakes.
 
Ocorre que um grande negócio foi proposto à empresa: agenciar e distribuir nos mercados um novo produto que estava fazendo muito sucesso nos Estados Unidos, a Coca Cola. Venda certa, fizeram grandes pedidos de garrafas e garrafinhas do refrigerante e o resto seria simples – Fernando Pessoa se incumbiria de bolar um slogan que fosse a cara dos portugueses e da Coca, uma vez que a matriz, já naquela época, preferia o apelo nacionalista para as vendas. Naquele tempo o slogan principal era: The pause that refreshes (a pausa que refresca).
 
E Pessoa sai-se com: Primeiro estranha-se. Depois entranha-se.
 
E com isso selou o destino da Coca Cola em Portugal. Armou-se uma enorme confusão porque precisamente o poeta inspirou-se na associação do nome Coca, com a xará alcaloide, pois justamente a estranheza e a entranha é a ação dos entorpecentes. Com isso, o Ministério da Saúde de Lisboa considerou o refrigerante um alucinógeno e o líquido de garrafas e garrafinhas foram vertidos no Tejo. A desconfiança dos portugueses com a Coca Cola, infundada por Fernando Pessoa, é histórica, tendo a Coca só em 1977, conseguido ser aceita novamente no país. Pessoa trabalhou nessa agência por quatro anos e ao que tudo indica, com resultados desastrosos.
 
E, voltando a comida, mais precisamente ao fechamento da refeição. Sempre achei curioso Pessoa se referir aos chocolates, ante os amados e clássicos doces portugueses. Ele não poetizou manjares ou pastéis de Belém. Justifica-se, porque Pessoa muda-se ainda criança para a África, portanto, mesmo não sendo lá muito fã de comer, por certo, se tivesse sido criança em Portugal, qualquer coisa teria passado da pena ao papel.
 
Mas Pessoa gostava de chocolate: “E entre meus dentes que se cravam na massa escura e macia”; “Comprem chocolate à criança a quem sucedi por erro” e, claro, “Come chocolates, pequena; Come chocolates! ”.

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