O que me derrubou foi o bule. A história com os bules começara antes. Iniciei pesquisa sobre eles porque descobri, num episódio da série Sherlock Holmes, quão valiosos e frágeis eles podem ser e, como sempre acontece, quando colocamos um assunto em pauta, parece que ficamos à mercê dele. Por isso, não me pareceu novidade quando, ao sair do hotel, dei de cara com uma refinada loja de bules orientais. Eu e minha filha nos divertíamos todas as tardes com o exemplar colocado à mostra - a pequena vitrine era trocada todos os dias. Dois mil euros, sete mil euros, quanto mais caro mais a gente se empolgava e tentava encaixar naquela pequena peça todo o dinheiro, por ela, requerido.
Os bules vão ficando para trás, o café já está nas cápsulas, os chás direto nas xícaras. Por isso, fui fisgada ao ver uma elegante garçonete derramando, de um bule para um prato fundo, um creme verde intenso. O restaurante já nos chamara a atenção pela discreta intenção de se mostrar. Um enxuto menu, escrito em papel bege iluminado por uma minúscula luminária dourada, afixado numa pilastra de pedra. Quando passávamos em frente ao restaurante, sentíamos o magnetismo que se encontra nos detalhes – decidimos que nosso último almoço seria ali. Pena. Tivéssemos cedido antes ao impulso, poderíamos repetir a melhor refeição que fizemos em Paris.
O Semilla não é um restaurante caro, nem chique. Ele se enquadra na nova proposta de ingredientes simples, trabalhado com excelência técnica e esmero na apresentação. A beleza é levada muito a sério pelos franceses. O tal verde intenso, era um velouté, uma sopa creme de agrião, que a gente não pagava, diretamente, era o presente da semana oferecido pelo chef. O bule imenso de ferro fundido é indicado para manter quente, por mais tempo, o creme. O menu segue o modelo executivo com três opções para cada estágio. Escolhemos ovos com quadradinhos de salsão, trufas e espuma de parmesão. Confesso que quase desisti da opção porque tenho pelas espumas uma sólida antipatia, mas seduzida pela “humildade” da combinação – ovo e trufa -, segui em frente e não me arrependi.
Minha filha pediu cenouras assadas, creme cítrico e canelone vazio. Um prato interessante: um canudo de massa sem recheio ocupava quase toda a borda do prato, era o carboidrato da refeição, ora comido com a cenoura, ora com o creme cítrico. O meu, frango assado e salsifi! Muito bem, nunca tinha ouvido falar. Trata-se de uma raiz que se assemelha ao nabo, mas o gosto é totalmente diferente, há qualquer coisa de mar nela. A planta se assemelha ao dente-de-leão, é nativa do sul da Europa e seu consumo regular tem ótimos benefícios.
O chá nos foi servido num pequeno bule de ferro fundido. Não combinamos, mas aquele chá seria sorvido no maior tempo possível - mesmo depois que todo o calor do ferro tivesse se dissipado, ainda haveria chá a ser tomado. Mesmo sem combinar, a foto desse nosso almoço tem a melancolia das flores do dente-de-leão, porque relatam a fugacidade da vida.
Saindo, teríamos só mais um jantar, só mais uma caminhada e só mais um bule caríssimo a ser ridicularizado por nós.
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