Como água para chocolate


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Li Como água para chocolate, de Laura Esquivel, quando era menina, e o livro foi inesquecível, em parte pelo título. Primeiro, a frase sem verbo que boia ancorada - um simplório “É” ou “Está” desanuviaria tudo. Depois a dúvida: seria a água, para o chocolate, como o vinagre é para o vinagrete, o parmesão para o espaguete, o louro para o feijão preto? Naquele tempo, eu adorava o chocolate Surpresa ao Leite, muito doce. Acho que nem cacau havia nele, mas era o que nós todos conhecíamos. Ao que parece, o título menciona duas coisas: o chocolate quente mexicano (nacionalidade da escritora) é feito com água. E a água que derrete o chocolate deve estar fervendo. O título é ótimo! Tanto alude à combinação perfeita dos ingredientes, quanto mede a temperatura dos sentimentos da protagonista. Hoje, entendo a receita e, com grande prazer, quando disponho de bom cacau em pó ou barra, mais de 50%, dispenso o leite e com paciência faço uma calda de cacau potente, pura e sem leite. 
 
Por isso, a receita de rocambole de cacau da chef Mari Hirata, de quem dias desses falei com vocês, tanto me interessou. Nesse caso, é a massa do rocambole que é feita de cacau com água. E lá está a referência do romance de Laura Esquivel transcrita na receita da chef: 40 gramas de cacau amargo em pó e 60 ml de água fervente. A mistura deles se dá como mágica mesmo, quem já tentou dissolver cacau amargo em água ou leite frio, sabe do que falo. A água fervente dissolve o cacau e o reduz a uma pasta que pode ser manuseada. Para transformá-la em massa, acrescenta-se 30 gramas de manteiga, 1 colher de sopa de essência de baunilha, 6 ovos separados e 130 gramas de açúcar.
 
Nossa relação com o chocolate é diferente daquela da América Central, muito embora haja uma espécie do cacau nativa da bacia do Amazonas. Fato é que não apreciamos a bebida amarga santificada por Maias e Astecas. Ao tempo do descobrimento eram os doces: abacaxi, mamão, goiaba, pequi, pitanga, coco, maracujá que faziam as honras da casa. Enquanto no México ainda é comum encontrarmos nas feiras e mercados uma caneca larga com chocolate quente fumegante, feito de cacau, água e um nadinha de açúcar.
 
Embora estivéssemos na rota desse fruto impressionante, somos consumidores de chocolate como homens modernos.
 
Talvez essa pasta de cacau e água se transformando em rocambole fizesse dar de ombros o mexicano, mas para nós, uma tardia descoberta.

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