Combinamos que o almoço seria perto do hotel, não daria para escolher por gosto um restaurante, também não poderíamos respeitar a exigência de trajes - botas de trilhas era o que calçávamos. Tudo bem porque meu foco estava em outro lugar. Embora o estômago requisitasse minha atenção, eu queria passar pelo cemitério da Recoleta. Não era vontade de conhecer, mas de rever os mais fascinantes mortos de Buenos Aires, quiçá do mundo.
A Recoleta é um bairro central da mais europeia das cidades da América do Sul. Por algum momento, diante das construções velhas do Centro, podemos mesmo pensar que estamos em Portugal, Espanha. Tinha ouvido falar muito mal de Buenos Aires, retornei sem qualquer expectativa, e talvez esse tenha sido o trunfo da cidade: não esperava nada, foi fácil me assediar. Mas são os mortos daquele lugar que fascinam. A insistência em integrá-los ao mundo dos vivos, assombra. Trazer à luz os caixões é como exibir um oco e eterno parto de dor. Converter covas em sala de estar quebra a alteridade desejada por quem se pretende vivo. Achatar os narizes nas portas de vidro dos jazigos faz de nós meros alcoviteiros. Mas, enfim, é de beleza que se trata.
Passamos rapidamente pelo cemitério, tínhamos que descer até a avenida del Libertador, encontrar embaixo das arcadas o Sottovoce, um restaurante italiano que o rapaz do hotel nos indicara. Chegamos, entramos e nos sentimos muito bem. Tudo inspirava confiança, atendimento tranquilo, garçons que sabiam explicar a comida, decoração atemporal. Escolhemos o vinho e o maître nos perguntou se poderia nos oferecer um Aperol, um delicioso drink, por conta da casa. Como recusar?! Portanto, imprudentes, começamos um almoço que deveria ser só uma coisa rápida. Ainda bem, porque fizemos nossa melhor refeição - e o Malfatti de ricota e espinafre gratinados com queijo parmesão foi seguramente o melhor prato de toda a viagem.
Um Malfatti é um mal feito em italiano, uma brincadeira, na verdade se trata de algo rústico, são bolinhas de ricota fresca, espinafre e ovo, enroladas nas mãos, depois mergulhadas num molho leve de creme de leite fresco, poderia ser de tomates também. O parmesão, em cima de tudo, funde-se com a cremosidade da ricota. Delicioso.
Subimos pelo mesmo caminho, sem qualquer interesse pelo cemitério, avivados que estávamos pelos prazeres que a vida, muitas vezes, nos dá.
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