Naquele sábado à tarde, eu precisava passar muito rápido pela fila do supermercado. Analisei rápido os fatores agravantes e os atenuantes dos compradores em fila, encontrei o caixa que julguei ser o melhor e fui. Em vão, porque o caixa travou. Mas antes que meu humor se amesquinhasse, começou a se desenrolar atrás de mim uma deliciosa cena doméstica:
- Deveríamos ter vindo mais cedo, vamos perder tempo desnecessariamente.
- Sim, você já disse isso e eu concordo com você, mas eu não consegui sair mais cedo do trabalho, por mais que tivesse vontade...
- Quanto custava aquele espumante?
- Estava incrivelmente barato, acho que a Chandon demi-sec rosè estava só R$ 38. E pensar que é a nossa bebida preferida. Acho que fui pessimista quanto aos motivos para brindar a vida, poderíamos ao menos ter garantido uns 10 brindes...
- Olha só o preço que vamos pagar aqui! Se você tivesse me ouvido! Não vou fazer as contas porque isso vai me irritar muito!
- Talvez eu possa amenizar sua raiva, nem o lucro daquele dia, nem o prejuízo de hoje lhes dizem respeito exclusivamente. Naquele dia nós dividiríamos a conta, hoje faremos o mesmo.
- O que está me deixando muito nervoso é esse seu convidado novo, você teve a gentiliza de perguntar o que ele gosta de beber? Odeio quando vocês decidem sair para comprar bebida no posto, isso é de muito mau gosto.
- Esse convidado novo é o namorado da (...) e com um pouco de imaginação a gente pode acertar. Olha só, ela não bebe nada, o rapaz é bem simples. Temos em casa vodka, Gin e Whisky. E, além dos espumantes, estamos levando esse fardinho de cerveja aqui, acho difícil errar com ele.
- Você já pensou que pode ser bem chato as pessoas escolherem algo que não combina com as comidas que preparei? Ai como eu gostaria que as pessoas entendessem o que é morder algo que libera a essência encapsulada, tratar o líquido como a mansa corredeira que embala o barco até a queda final...
- Seus jantares são memoráveis, mas nossos convidados vão até nosso apê porque gostam de você mais do que da comida, embora ela seja realmente incrível.
-Acho que você deveria trocar essa cerveja, concordo que o rapaz tenha mesmo “cara de cerveja”, mas levar uma assim, tão comercial, ele pode achar ofensivo.
- Troco, claro, aliás, vou lá pegar aquela artesanal, eu até que gosto de uma cervejinha sábado à tarde com aqueles salgadinhos vagabundos.
- Tô pensando em viajar, o que você acha? Nossos dias em Buenos Aires foram realmente inesquecíveis.
- Foram sim...
- O que você acha?
- Também pensei em viajar, mas com meus pais...
- (...)
- Como você sabe, nosso tempo está se esgotando...
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