Ipês e minha infância


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Os ipês de Franca são famosos entre observadores, escritores e fotógrafos, não sei quanto se restou para falar deles, o assunto parece mesmo esgotado. Talvez não tenham dito que nossos ipês são apressados, florescem em julho enquanto a floração oficial está marcada para agosto e setembro. As sementes aladas, em grande quantidade, facilitam a dispersão pelo vento, assim como a exuberância das flores asseguram a permanência de árvores, que todos os anos esperamos florir. O resultado é que os ipês são encontrados do Maranhão ao Rio Grande do Sul - a árvore é nativa do Brasil. Acredito que os dias mais frios desse ano os fizeram belos como há muito não se via. E a gente voltou a falar deles, tentando achar o mais bonito da cidade: se o de frente ao Bailão do Passarinho ou os dois do AME da Hélio Palermo ou qualquer outro que alguém indicar na disputa.    
 
Mas o que mais gosto nos ipês é o poder de convocarem lembranças da minha infância, muito embora eu não me lembre dessas árvores enquanto fui criança. Mas são seus cachos de flores rosas formando bolas encrespadas e frisadas que me levam ao balcão de uma sorveteria simples de vila, que exibia apenas seis baldes de papelão com sorvetes de massa da Kibon. Sorveteria era sinônimo dos sorvetes de creme, chocolate, flocos, abacaxi, coco e morango. Mas isso não é surpresa, meus sentimentos são explorados pela indústria: vim a saber que cores assim, essas que dão vontade de comer, são as chamadas candy colors.
 
Faz falta também a simplicidade no ato de ver o sorvete, a concha de sorvete descansando na água leitosa e a paz imperturbada pela dieta ou sanitarismo. Agora me vejo obrigada a pensar no quanto o açúcar, ou a base utilizada na feitura do sorvete, podem prejudicar minha saúde. Vou tratando de fazer substituições que, mesmo deliciosas e saudáveis, não passam de cópias pálidas do sorvete de morango da minha infância. Assim é, assim deve ser.
 
Agosto é também o início da safra do morango, podemos comprá-los a bom preço, lavar, secar e estocar no freezer. Quando quiser, bater num processador com o mel caindo em fio até que se veja surgir dentro do copo uma massa cremosa – um sorvete caseiro, natural, da cor das flores do ipê roxo, gostoso e bonito o suficiente para figurar nas boas lembranças que estão por vir.      

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