Eu sempre quis saber de onde vem a noite. Achar o início do imenso corpo negro que se movimenta à velocidade dos ponteiros do relógio e tudo subjuga. Curioso que não são as noites, mas as manhãs, que fornecem algum esclarecimento porque, quando bem cedo eu saio de casa, consigo surpreender uns restos de noite, pedaços do corpo negro, tomados pela sonolência, jazem aos pés das árvores, que gotejam noite pelas folhas.
Mas foi diante de um vale que eu tive a resposta.
Passava pouco do meio dia, o sol clareava e esquentava sem pudor. Ainda assim, em meio às árvores, foi possível divisar a noite acocorada. Não havia face, apenas costas negras e lisas. Localizada a criatura, fui cuidar dos meus afazeres e voltei à borda do vale, lá pelas quatro horas, para então vê-lo fosco – apenas as copas das árvores mais altas respiravam o ar do sol, todo o resto sufocava-se na melancolia.
Nesse dia, vi o nascer, a plenitude e o poente da escuridão.
Mas nem todo negrume é regulado pelas mãos de Deus. Deem uma olhada no documentário chamado What the health, produzido pela Netflix. É assombroso sob vários aspectos, mas um especificamente me deixou perplexa: uma lei, promulgada nos EUA, apelidada de algo como “lei do cheeseburger”, impede que o cidadão americano ingresse na justiça contra os fabricantes, vendedores e anunciantes de comida ou quaisquer dos ingredientes do fast food. O representante da Câmara americana classificou de frívolos os processos de pessoas que engordam e depois vão à Justiça requerer reparação contra empresas ou governo.
De um lado, o governo lava as mãos e recebe quantias milionárias em forma de doações para campanhas, vindas principalmente do Mc Donald’s e Burguer King, de outro lado, a inédita imunidade à indústria alimentícia americana. O argumento perverso que justifica essa lei é o livre arbítrio – todos sabem o mal que o lanche faz e se comem é porque querem. Mas não é bem assim, porque as pessoas não tiveram educação alimentar, o lanche é a refeição americana mais barata e, pior, ele vicia. Causa estranheza uma lei assim vir justo do país que elegeu a liberdade como “O Bem” máximo da sociedade. Todavia, ao lidar com o poder da indústria do alimento, se ajoelha e cerceia direitos. Ironia das ironias, o congressista responsável pela edição da lei passou mal no dia da votação e não pode comparecer, porque foi internado com problemas cardíacos - uma das doenças cuja dieta tem influência direta.
Em tempo: a lei não foi aprovada pelo Senado americano, mas muitos Estados promulgaram leis idênticas - prova de que o breu nem sempre é para realçar um céu de estrelas, às vezes é só escuridão.
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