Suco de um sol doce


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Um pé de laranja é algo muito bonito. Quando as laranjas estão maduras, elas adquirem um tom alaranjado sugestivo, parece que cada uma das frutas aprisionou um raio de sol poente. Laranjas maduras têm vitalidade e o bem que faz um suco de laranja é intuitivo. As folhas são bonitas a seu modo, exibem um verde profundo e brilhante que me fazem lembrar do chão verde de pó Xadrez encerado a escovão. Certamente, a Criação não descuidou da harmonia – quando a gente arranca uma laranja do pé e junto do fruto vem o talo adornado de folhas, tem-se nas mãos uma coisa boa de olhar. Contudo, o prazer é cravar nela os dentes, até o mais fundo que se conseguir, e levar à boca o sumo doce e ácido com pedaços tenros de bagaço.  
 
Estou sentada diante de um pé de laranjas perfeito. Exausta e extasiada com a beleza de tudo o que me circunda – posso escolher entre a grandiloquência do vale e o vertiginoso morro – mas é o pé de laranjas que retém minha atenção. Não é por nada, é que as raízes da árvore estão na descida do vale. Por isso, ao nível dos meus olhos, está a copa verde e farta de bolinhas laranjas; um buquê ofertado pelas mãos de um gigante.
 
Tenho sede e fome, mas não sei se aquele terreno é parte da propriedade que me hospeda, quando decido perguntar, não é mais preciso, porque a dona do lugar passa por mim com uma engenhoca para apanhar laranjas: uma vara de bambu cumprida com uma lata presa na ponta. O lance é o seguinte: encaixa-se uma laranja dentro da lata e, de um golpe só, com a borda da lata, a gente tenta arrancar o galho que sustem a fruta. É mais ou menos eficiente. Ofereço ajudo, desço o barranco é só então me dou conta da altura do pé. Sem equipamento, faço o que posso, pulo e agarro um galho e arranco tantas laranjas quantas minha espinha dorsal permite. Em pouco tempo, tenho frutas que não dou conta de carregar.
 
Meia hora mais tarde, com mais sede e fome, recebo o aviso de que o jantar e o suco estarão prontos em 10 minutos. Decido esperar por ali mesmo, nada mais me interessa. Começa a movimentação, passam pratos duralex, talheres pobres, comida boa e farta e uma jarra de plástico cor de pêssego abriga o suco das famosas laranjas do lugar. Quando despejo o suco no copo, uma água sem corpo, levemente amarelada com alguns grumos de laranja caem no meu copo - no fundo da jarra, posso ver a camada sedimentada de açúcar. Com humor, a dona anuncia a todos que a colheita de laranjas da tarde fora farta graças a minha ajuda. “Graças a Deus” ela teria laranjas suficientes para uma semana de laranjadas. 

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