Eu pensei que encontraria a crise onde quer que eu fosse. Eu pensei que a crise tivesse se transformado numa neblina, que aproveita a manhã fria de inverno para submergir indistintamente a cidade no vale. Mas não, vi potentes raios de sol desconsiderarem o nebuloso. Vi um rio vermelho indo e um rio amarelo voltando: lanternas e faróis congestionados como peixes, sufocados na disputa ombro a ombro por oxigênio numa lagoa fétida. Vi, em duas manifestações, milhões se deslocarem em nome da fé – alguns milhões atribuíam sua fé a Jesus Cristo, outros milhões à liberdade de ser quem se é. Contudo, São Paulo esteve lotada no feriado de Corpus Christi.Por isso, tivemos, eu e minha família, que entrar na correria como quem dispõe de hora e meia de almoço, não obstante estivéssemos de folga.
Desde que minha filha foi morar fora da nossa casa, as oportunidades de convivência são prata polida, o brilho foi renovado. Por isso, quando se aproxima a data de nos encontrarmos, pergunto a minha filha, que já está em São Paulo, o que ela está com vontade de comer, para que eu escolhao nosso trajeto. Não foi diferente dessa vez.Na verdade, foi um pouco.
Ela adora um restaurante que está na moda em São Paulo desde 1994, o Spot.O curioso é que,na primeira vez que eu fui ao Spot, eu estava grávida dela, em 1998. Por isso, reservei o Spot para o último jantar desse encontro para que a despedida fosse mais saborosa que a entrada - só não contava com o cordão humano de quase três milhões de pessoas atravessando a Avenida Paulista, transformando a travessia de quatro quarteirões num martírio de hora e meia.Concordamos, melhor desistir do Spot. E o que nós comeríamos? O primeiro bloco da família, que conseguiu se reunir às oito da noite, pizza, o segundo bloco, que só conseguiu chegar às onze, lanche.
E já que preciso destacar um deles, falo do lanche: pão ciabatta, rosbife, muçarela de búfala, rúcula e bacon. Para mim, uma seleção irretocável de ingredientes, em se tratando de um lanche, sobretudo se houver rúcula suficiente para combater tantas arrogâncias juntas. E, se no papel o lanche já parecia gostoso, pessoalmente, estava uma beleza – ingredientes bem arrumados faziam fileiras de cores bem distintas, sem miscelânea. O pão com boa casca e belos veios brancos da farinha de trigo, mas o miolo, um pouco mole. Passei um tempo querendo contrariar minha irmã da delícia do lanche – francamente, miolo mole em ciabatta é pior do que em gente. Mas a única dúvida que minha irmã teve foi se comia um ou dois lanches.
Em tempo, achei que tudo esteve muito bom. O ótimo ficou por conta dos participantes da Marcha para Jesus – 70% dos entrevistados declararam achar correto que as escolas ensinem o respeito aos gays.
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