Há uma imensa boa vontade, é o que se pode ver. Água fresca correndo num fio desviado de alguma mina bem próxima. Quando a sede pega e a gente se abaixa para alcançar esse fiapo d’água, dá de cara com uma santinha colocada ao lado do bocal da mangueira. Esse “olhos nos olhos” não passa desapercebido, é como ouvir a resposta: “sei do que precisas e eu tê-lo dou. Bebas!” Inevitável, o orgulho desliza fácil garganta abaixo. Há também uma ducha improvisada ao ar livre para um banho possível, sem nudez, explicável pela boa vontade de quem deseja refrescar o corpo cansado daquele que já subiu 4 km e tem mais 7 km de subida muito íngreme. Esse pedaço do caminho, além de sombreado, além das fontes de água, está cercado por bicos de papagaio vermelhos e amarelos, flores do mato arranjadas em canteiros e uma gruta de pedra com oito nichos - num deles, São Peregrino. Há ainda, um banco de tábuas corridas. Ali, eu e meu marido nos sentamos para aproveitarmos e admirarmos o que a boa vontade é capaz de fazer, sem gastar ou receber qualquer dinheiro, no nosso Brasil de hoje. Parece lenda uma coisa dessas.
Essas oferendas estão num trecho de passagem, mas caso se queira descansar um pouco ou pernoitar, que foi o nosso caso, tem-se a Pousada da Dona Inês, ao pé de um morro enorme, desses cuja cabeça é pelada, mostrando o interior de pedra mal disfarçado pela vegetação rala. Estrategicamente bem colocada, a pousada corta ao meio uma subida, que por essas bandas é chamada de Quebra Canela. Olho para cima e vejo pássaros enormes se atirarem em voos planos que se entrecruzam. Primeiro um, depois dois, depois todos. Algo que me faz lembrar das imaturas esquadrilhas da fumaça.
Por aqui, não se vê mais cafezais. Desde o início da subida, topamos com antigos caminhões Ford branco e azul claro repletos de cachos verdes bem granados de bananas prata. O caminho é de pedra solta, os caminhões espirram pedras, nossas botas cumprem o papel de manter firmes os tornozelos dos pés que pisam pedras. E quando, enfim, temos a primeira visão na altitude, as bananeiras lá embaixo são estandartes de alguma escola de samba que desfila, mas não passa nunca, ou, também, verdes velas esfarrapadas de barcos que navegam em seco.
Entramos na pousada e, na varanda, um cacho perfeitamente maduro de banana prata é oferta da casa a todos os passantes. Comi uma, e outras, depois chegaram ciclistas, que comeram quantas quiseram, beberam café e se foram. Esperamos pelo almoço imobilizados pelo cansaço e pela paisagem que, infelizmente, não cabia num olhar só, era preciso ter olhos às costas. Então, nos foi servido algo que nem precisava de tanta fome para ser apreciado: arroz, feijão, ensopado de carne moída com cenoura e chuchu, saladinha de alface e tomate, farinha, pimenta e ovo frito. E com uma caneca de ótimo café sem açúcar, afugentamos o sono e o cansaço só para reter, por um tempo mais, a beleza da serra da Luminosa.
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