Não sei bem por que retorno sempre ao tema, o engraçado é que vivo no lugar onde cresci, só não nasci aqui por mero acidente, que em nada me fez estrangeira. Ainda assim, sinto-me seduzida por raízes, temo o desterro. Os insuperáveis Guimarães Rosa e Ariano Suassuna estão de acordo com o pertencimento da gente ao local de vivência, o que me faz muito bem acompanhada.
Pois então, eu nem pensava sobre isso quando me deparei com uma pequena matéria de um jornal italiano dando conta das cinzas de um conhecido: senhor Tullio Santini, proprietário do restaurante homônimo na cidade de Ribeirão Preto. Da morte dele eu já tomara conhecimento, sempre apreciei a comida servida naquele estabelecimento, e acompanhei, de longe, a mudança de seus estados de saúde, a decrepitude e a morte. Uma coisa boa foi que a comida do seu restaurante não percebeu a morte do dono, por lá continua-se comendo muito bem.
Então, o senhor Tullio Santini nasceu numa região da Itália que nos pareceria impossível deixá-la: no próspero norte italiano, próximo de Milão e dos românticos lagos de Como e Maggiore, na região da Lombardia, na cidade de Cremona. A matéria do jornal dizia que ele fizera fortuna aqui no Brasil como restauranter, graças aos sabores italianos que jamais o abandonaram - afinal, quando fechamos uma porta atrás de nós, algo fica, mas muito nos acompanha. E a comida é, sem dúvida, uma parte da cultura que será nossa eterna companheira.
Mas o que será que o menino ou o jovem Tullio comia? Não podemos mais perguntar, apenas especular. Por exemplo, ele era habituado ao arroz, porque o norte da Itália tem estreita relação com ele, inclusive, em detrimento do macarrão, que faz a felicidade do italiano do Sul. Mas seu arroz era o do cozimento lento, com pouco líquido, instado a dar toda a sua cremosidade, mantendo o interior de cada grão ainda capaz de oferecer aquela leve resistência ao ser mordido: o risoto. E quanto aos queijos, aquela região é que presenteia todo o mundo com Grana Padano, Taleggio, Mascarpone.
Talvez, quando o fim se aproximava, o senhor Tullio tenha se visto pensando em tudo o mais que havia na vida deixada lá atrás. Talvez algumas lembranças estivessem a lhe morder os calcanhares, portanto, reuniu seus filhos e requisitou que seu corpo fosse cremado e suas cinzas jogadas no rio de sua Cremona, o Rio Pó. Foi sua última e definitiva viagem. Consolo-me com o entendimento do filósofo Nietzsche sobre a morte: onde estou a morte não está, onde ela estiver eu não sou mais.
Entendo que essa vontade de deitar as cinzas de um corpo morto nesse ou naquele lugar tenha um único apelo: dizer aos nossos queridos quem realmente somos. E que ninguém se esqueça disso.
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