Estão dizendo que o mar não está para peixe e que uma onda pessimista tomou conta de muitos de nós, e que esses não ousam sequer bater as redes porque não esperam pegar sequer manjubas num mar de maré tão baixa. Pode ser, mas não é para ser, momentos de grana curta são bons para pensar melhor na vida - os chineses dizem que tempos de crise são bons para crescer. Ando otimista, há uma saída, dolorosa, mas quem sabe lá na frente nossos conterrâneos possam estar mais tranquilos do que a gente. A saída: esquecer que o PIB existe, ele é uma invenção recente e deve ser logo descartado. Por que temos que medir nossa felicidade através do PIB? Olha só, se a Bayer vende mais antidepressivo o PIB registra, se eu estou bem, sem consumir remédio algum, o PIB me ignora...
Portanto, quero aproveitar essas semanas que ainda faltam para o ano acabar e elencar as melhores coisas que me aconteceram na gastronomia. Aquilo que de melhor vi, comi e li, um compartilhar de boas coisas.
Começo pelo melhor livro de receitas. O melhor livro gastronômico, segundo o Jabuti, é sem dúvida da Nina Horta: O frango ensopado da minha mãe, e embora ele tenha uma ou outra receitinha, esse não é seu forte. Mas se o assunto é receita, o Comida de Verdade, do Yotam Ottolenghi foi companheiro de várias horas para qualquer refeição. Falando assim parece fácil, simplório, injusto, porque na verdade, é desafiante e estimulante. As receitas são bem elaboradas e muitas vezes com lista grande de ingredientes, diga-se logo, produtos baratos, com tratamento de estrela.
Mas o melhor de tudo: a combinação ousada de temperos. Acho a comida brasileira muito boa, principalmente a do dia a dia, mas é inegável nossa falta de imaginação e ousadia na hora de temperar. Daí, quando leio uma receita como a do Ratatouille indiano, por exemplo, me bate um certo despeito, como assim?! Cebola roxa, pasta panch phoran, cúrcuma, cardamomo, pimenta dedo de moça, 24 folhas de curry, folhas de coentro, pasta de tamarindo... Mas não é para se assustar porque tem jeito para tudo e quase sempre podemos fazer substituições com aquilo que não temos por aqui.
O livro é vegetariano e isso é outro dado surpreendente, Ottolenghi prova como os vegetais podem ser simplesmente maravilhosos. Dizer que o livro serve aos iniciantes, melhor não, para isso têm os ótimos livros do selo Panelinha, da Rita Lobo. Mas esse aqui traz junto de si a centelha da curiosidade. Para navegar com ele a gente vai querer montar aquela prateleira de vidros de temperos, bonita de ver e comer. Yotam é judeu de Israel, seus avós são toscanos, seu sócio é palestino e seu livro está recheado de berinjelas, quiabos, tomates, milho, frutas e queijos que desconhecem cercas ou muros, um generoso convite a vida.
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