Experiência gastronômica


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Experiências gastronômicas existem, ainda que a palavra tenha caído numa vulgaridade sem retorno, ela compõe a tríade “Geni” do momento: conceito, experiência, sustentabilidade...Mas, é verdade, grandes chefs de cozinha buscam o inusitado, a surpresa que proporciona ao cliente o prazer que se eternizará no palato: Estrelas no céu da Boca (grande título de Carlos Alberto). Pode-se dizer que é quando a comida sugere algo que não está nela exatamente, mas em nós, e que só fora descortinado pelo seu poder fertilizante. 
 
Para ser experiência tem que ter havido entrega: de boca, olhos, tato – esse, tantas vezes desprezado. E pode-se ir além, é o caso do chef nórdico que leva à mesa um I pod com a gravação do barulho do mar para acompanhar sua preparação, idêntica a areia da praia. Óbvio, a sensação será aumentada quando o croc croc da boca encontrar o xuá xuá das ondas que arrebentam. Outro, um chef espanhol que leva à mesa um chocolate que tem em si, aprisionado, o gosto e o cheiro de charuto, tamanha realidade leva às lágrimas ex-fumantes ainda apaixonados pelo fumo. Florestas de musgos verdes envoltos em bruma tropical, um cristal límpido, cônico, impede por minutos que a nuvem se desfaça, encantamento é a palavra. Entendo que tudo isso seja na verdade, excesso, ainda assim, admirável. 
 
Mas muitas coisas me escapam, não compreendi o que a cadeia japonesa de restaurantes Ichiran, que acaba de abrir a sua primeira filial em NY, vem chamando de experiência. Caso alguém se interesse, saiba de antemão que deverá ir sozinho, porque vai comer numa cabine fechada que impossibilita qualquer tipo de comunicação, inclusive com o próprio garçom. Num papel, tipo gabarito de vestibular, a gente marca o que quer comer, na verdade será sempre um lamém, escolhe-se alguns ingredientes. 
 
Acho que é simplesmente marketing, as filas se avolumam na porta. Outro bom motivo é a rotatividade que deve funcionar bem, afinal, o que a gente vai ficar fazendo dentro de minúsculas cabines de degustação, sozinhos. Não, não exatamente sozinho, tem as telas, claro, as pessoas que estão comendo, estão também mexendo em seus celulares. Imagino que o comércio deve estar em alta, mas a experiência em baixa. Não seria a nova roupagem para a velha sala de TV com pessoas solitárias se alimentando enquanto a atenção está em outro ponto, na tela. De frente da TV, do computador, do celular, tanto faz, a comida será sempre jogada para os lados, num automatismo de encher barriga. É incrível se pensar que as pessoas desviariam nossa atenção para a refeição, imagino exatamente o contrário. Mas vamos esperar e ver qual é a do Ichiran, se for de fato patrocinar a concentração total na comida, ajudaria cortar o wi-fi.  

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