Não tenho ainda nenhum parente tão próximo e/ou amigo querido que precise ser visitado ou recordado no Dia dos Mortos. Meus avós morreram todos, mas tampouco os conheci em vida, são os galhos desconhecidos da minha própria árvore. Por isso, meu “passeio” ao cemitério é pura reflexão. Pois é, eu gosto muito de ir a cemitérios. Claro, existem os clássicos, aqueles que são propriamente pontos turísticos, como o da Recoleta, em Buenos Aires, que tem mausoléus artísticos e a morte é bem cuidada. Mas impressiona sobretudo porque alguns caixões não são enterrados e a gente leva um baita susto ao se deparar com o caixão sobre mesas servidas de belíssimas toalhas rendadas, ao lado, às vezes, uma cadeira. A cena incomoda é como tomar parte de um velório eterno, onde mudam-se os vivos, mas o defunto é sempre o mesmo...gente, isso é puro Almodóvar!
Depois, claro, tem os cemitérios de Paris, onde o chique são os enterrados. Basta, de mapa nas mãos, sair a procurar por esse ou aquele escritor, filósofo, cantor. Achar fofo Simone de Bouvoir enterrada ao lado de Sartre e rir com o defunto mais sexy de todos os tempos: Serge Gainsbourg, seu túmulo não exibe nem velas nem orações, mas calcinhas, soutiens, batons e muitos beijos.
Gosto do Dia de Finados, é uma data toda nossa, da América Central, de origem indígena, Astecas e Maias celebravam seus mortos numa festança que durava até um mês. Os Espanhóis deram um jeito de ungi-la e a transformaram numa data católica. No entanto, há diferenças fundamentais na maneira de vivenciar a data. Por incrível que pareça, acho que a maior tristeza é brasileira, ainda que os avisos eclesiásticos anunciem que não é dia de tristezas, mas de saudades, ainda que imensas.
A outra grande diferença é culinária. Não cozinhamos para os mortos, nem lhes damos de beber, se é que estamos a fazer pelos vivos. No México, por exemplo, local da maior festança, há os pratos típicos do dia. E as oferendas aos mortos são necessariamente a comida, a bebida, a música e as flores. As crianças se empolgam com as caveiras de açúcar com os nomes dos mortos escritos. Há o pan de muertos, um pão doce tipo rosca que faz o maior sucesso entre os mortos, dizem. Mas falar do México é chover no molhado, porque a festa deles, para os mortos, é hoje patrimônio cultural declarado. Mas, ainda que incomparável, países como Bolívia, Chile, Peru demonstram uma natureza mais mexicana que brasileira. Pois as famílias vão para o cemitério, passam o dia ou a noite e algumas fazem pequenas festas privadas para seus mortos particulares: comem, dançam, tocam. Não temem demonstrar a alegria da vida ao morto. Nós ainda preferimos demonstrar a tristeza da saudade, ainda que essa mesma, a saudade, tenha um outro lado.
Enquanto escrevo me lembro das comidas de velório. Quando criança cheguei a ir a alguns velórios onde eram servidos quitutes deliciosos, isso no tempo em que os mortos ganhavam um adicional de tempo na própria casa, velado na mesa de jantar, sim algo de gosto duvidoso, mas para os convidados era melhor. A Nina Horta até dá uma receita perfeita para o velório, que é um pão de ló cortado em tiras, depois torrado no forno para ser mergulhado no cálice de vinho de porto - de-fi-ni-ti-va-men-te outros tempos, agora sim, de muito bom gosto.
DICA DA SEMANA
Crosta de gergelim
Fizemos um teste dia desses que deu muito certo. O ingrediente é o gergelim que merecidamente anda na moda.Fizemos uma torta salgada, receita de tamanho doméstico que coube numa forma desmontável, de aro em torno de 24 cm. Untamos com manteiga e espalhamos gergelim torrado em toda a lateral da forma e depois despejamos a torta para ir ao forno. O resultado vocês já podem imaginar: todos os pedaços com aquela linda crosta de gergelim. A receita pedia que se utilizasse o papel manteiga, mas nós não colocamos e ainda assim deu certo, nossa forma é de teflon. Mas na hora de desenformar um pequeno pedaço ficou grudado na forma, talvez o papel manteiga seja mais prudente. E imagino que essa dica valha para muitas receitas, sejam elas de sal ou doce.
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