A venda da Colômbia, como destino turístico, é patrocinada pelo seu artista maior, Gabriel García Marquez. É bem verdade que a Colômbia tem Botero, Shakira, mas García Marquez soube registrar a alma colombiana e a eternizou banhada de calor e Nobel. Foi uma sorte muito grande ter me deparado com um blog que indicava um áudioguia que nos levaria aos locais da cidade de Cartagena onde as histórias do escritor foram ambientadas. Foi nosso melhor momento. Um pouco cansativo, iniciamos a turnê às 9h da manhã e só terminamos às 6h da tarde - imersos no realismo mágico que me trouxe de volta minha adolescência. Não que tenha gostado muito dela (de minha adolescência), mas pelo García Marquez fui apaixonada. O que mudou? Não sei. Reli três de seus livros antes da viagem: aquele que ele considerou sua grande obra, “O amor nos tempos do cólera”; “Do amor e outros demônios” e o “General em seu labirinto”. Encontrei velhos fantasmas imersos numa bruma fresca que há tempos eu não visitava. E, ao colocar os pés em Cartagena, tive o mesmo tipo de sentimento e gostei demais: fantasmagórico.
O ponto alto do tour, um dos últimos lugares a serem visitados, é o antigo Convento Santa Clara, que se transformou em hospital, necrotério e hoje é um hotel da rede Sofitel. Precisaria de muitas linhas para explicar porque esse prédio teve tanta importância na vida do escritor, mas em termos gerais, Gabriel entrou ali para cobrir, como repórter, a retirada das tumbas das freiras Clarissas, que ainda estavam enterradas lá. Saiu tão impressionado que um romance se impôs.
Justo quando chegamos ao prédio, um temporal prometido desde a manhã resolveu deixar a condescendência e desabar sobre nós. Olhamos em volta e havia uma boa proteção, o Malanga (bar e restaurante). Nos secamos com papel, nos sentamos nas banquetas do bar. Pedi para beber algo que constava da minha lista de vontades: a limonada de coco. Uma bebida refrescante que leva limão, creme de coco e gelo. O creme de coco é feito a partir do coco fresco e pode ser substituído pelo leite de coco, sem o mesmo efeito, acredito. O resultado é um milkshake adorável, não muito doce e bem cremoso.
Foi chuva de verão, rápida, caudalosa, de mão única, não deu sequer para molhar todas as paredes do antigo convento. Ficamos por ali como que compelidos a gravitar na força exercida pelas coisas desconhecidas. Não entramos no hotel, deixamos para outro dia, estávamos cansados. Na outra face do prédio um restaurante de frutos do mar nos serviria para matar a fome do corpo - La Cevicheria é um bom lugar. Na parede do restaurante, uma foto do chef Bourdain, que parece considerar esse um dos melhores de Cartagena, mas há vários. Os pratos com frutos do mar são abundantes e fresquíssimos, pode-se dividir em dois ou três. Suspirei de saudades quando vi que eles serviam cauda de lagosta fresca com molho de manteiga e ervas, quanto tempo! Iniciamos o jantar com o pão e uma berinjela defumada e queijo, essa sim, espetacular. O vinho nos deixou imunes ao pequeno caos da rua: ouvimos Thriller tocando e uma cabeça a girar nos calcanhares nos indicando que algum Michael Jackson rondava, depois um rapper metido a repentista em meio à oferta de esmeraldas e pérolas e os fantasmas das freiras Clarissas. Quando decido fazer meu pedido, é tarde demais, a lagosta tinha acabado, parece que todo mundo pediu lagosta naquela noite.
Tudo bem, embrulho a saudade, os fantasmas, o realismo mágico de García Marquez no meu embornal para abri-lo em outras paisagens.
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